quarta-feira, 8 de novembro de 2023

7 medidas que ficam suspensas se o Orçamento do Estado não avançar

Se a proposta do Orçamento do Estado não avançar, há várias medidas que ficam suspensas. Do salário mínimo e pensões ao IUC e IRS.

Com a demissão do cargo de Primeiro-Ministro por parte de António Costa, cabe ao Presidente da República – Marcelo Rebelo de Sousa – tomar uma decisão e divulgar o que vai fazer.

Assim, se Assembleia da República for dissolvida e forem convocadas eleições antecipadas, a proposta de Orçamento do Estado para 2024 (OE2024) fica sem efeito.

Então, caso isso aconteça, saiba as 7 medidas que ficam suspensas:

1. Salário mínimo não sobe

A proposta de subida do salário mínimo para 820€ fica, para já, sem efeito.

Apesar do acordo alcançado com os parceiros sociais, a decisão de aumentar o salário mínimo não pode ser tomada por um Governo demissionário;

2. Pensões não são atualizadas

O aumento de 6,2% nas pensões até 1020€ pode não entrar em vigor em 2024.

Se houver eleições antecipadas, fica também sem efeito o aumento das restantes pensões e do indexante dos apoios sociais (IAS), que serve referência a vários apoios da Segurança Social;

3. IUC não sobe

A queda do Governo pode significar um passo atrás nesta medida, que, ao que tudo indica, não entra em vigor no início de 2024;

4. Taxas de IRS não descem

A proposta de Orçamento do Estado para 2024 previa uma redução das taxas de IRS para os cinco primeiros escalões.

Se se confirmar a dissolução da Assembleia da República, as taxas de IRS devem manter-se inalteradas em 2024;

5. IRS Jovem não é alargado

A isenção do pagamento de IRS no primeiro ano de trabalho foi prometida aos jovens para 2024, mas a medida fica suspensa se houver dissolução da Assembleia da República;

6. Passe gratuito já não chega a todos os estudantes

A proposta de Orçamento do Estado para 2024 previa a atribuição de passes gratuitos aos estudantes até aos 23 anos e ainda o alargamento do Passe Social + a mais beneficiários. Se o OE2024 não avançar, esta medida também fica pelo caminho.

7. Propinas não serão devolvidas

O Orçamento do Estado para 2024 previa a devolução de um ano de propina por cada ano de trabalho declarado em Portugal.

Se o Presidente da República dissolver a Assembleia da República, a proposta fica sem efeito.


Operação Demissão

 


Numa ação absolutamente inédita, o Ministério Público lançou uma operação judicial de buscas e detenção sem a batizar. A investigação levou à demissão do primeiro-ministro, António Costa, e quando este facto for referido em livros de história ou artigos de jornal vamos ter sempre a sensação de que falta qualquer coisa. Operação ….


É que nem era muito difícil: em causa estão indícios de corrupção e tráfico de influência relacionados com a exploração de lítio e hidrogénio verde e a construção em Sines de um espetacular data-center que iria (irá ainda?) atrair investimento estrangeiro de milhões de euros.

O caso envolve almoços e jantaradas de “valor não despiciendo” pagos a um ministro importante do Governo, a amizade com António Costa usada como arma de pressão, uma estrada de 20 milhões de euros que serviu como presente para corromper, motoristas do Governo a transportar Galambas juniores, garrafas de vinho e investimentos a passar de 500 milhões para 2 mil milhões de euros.

O processo tem arguidos com a dimensão de João Galamba, o ministro das Infraestruturas que depois de resistir à tempestade TAP /Marcelo e de achincalhar o Presidente da República no Parlamento acaba por arrastar Costa e o Governo para um fim inglório; Diogo Lacerda Machado, o conselheiro e melhor amigo do PM demissionário que até faz parte do rol de detidos que não se livrará de uma noite, no mínimo atrás das grades ; Vítor Escária, chefe de gabinete de Costa com experiência em processos judiciais como a Operação Marquês ou o Galp Gate (aí estão dois bons títulos); o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta, que se torna notícia pelas piores razões ou o presidente da Câmara de Sines, Nuno Mascarenhas, também obrigado a trocar os Paços do Concelho pela Esquadra de Moscavide. Os cinco detidos foram interrogados ontem por um juiz de instrução criminal que determinará o seu futuro próximo e se aguardarão em liberdade o desfecho da investigação.

Mais: pela primeira vez desde que há democracia (para trás não sei, confesso) houve buscas na residência oficial do primeiro-ministro em funções. Operação São Bento era assim tão mau?

Ainda por cima, os procuradores liderados pelo magistrado João Paulo Centeno enviaram para o Supremo Tribunal de Justiça suspeitas relacionadas com uma suposta interferência de Costa para “desbloquear” negócios considerados ilícitos. “Obviamente” (as palavras são do futuro ex-primeiro-ministro) António Costa viu-se obrigado a pedir a demissão, repetindo o mantra que já tinha usado para comentar casos judicias que envolveram membros do seu Governo e até o inimigo íntimo, José Sócrates: “À Política o que é da Política, à Justiça o que é da Justiça.”


Esta Operação Demissão (este título não dava, admito) terá como consequência, para além da saída de Costa após oito anos de governação, a queda inevitável deste Governo que, apesar da maioria absoluta conquistada há menos de dois anos, nunca conseguiu governar em paz por causa de casos e casinhos que terminaram com um casão.

Ontem mesmo o Presidente da República – para quem a operação do Ministério Público podia muito bem chamar-se “Eu avisei” – vai ouvir os partidos com assento parlamentar. Depois, já hoje, reunirá o Conselho de Estado e deverá então marcar novas eleições para, previsivelmente, daqui a dois meses. Tem ainda a hipótese de nomear um novo Governo sem a realização de eleições.

No Partido Socialista, já começou a Operação Sucessão com dois nomes óbvios à cabeça: Pedro Nuno Santos, que saltou do barco no meio da tempestade TAP e Fernando Medina, sob quem paira a sombra do processo Tutti-Frutii (fica no ouvido, não é?).Na oposição, afiam-se as facas para o assalto ao poder.

Costa, a quem a voz só tremeu quando agradeceu à mulher o apoio que recebeu nestes anos ao leme, garantiu ontem numa breve declaração de despedida que “não será candidato” a primeiro-ministro. Para ele, a Operação Poder acabou, Por agora. Para já, vai ser investigado, deverá ser constituído arguido e o Ministério Público do Supremo terá de decidir se há ou não indícios suficientes para o acusar. Depois, começará a nova vida do homem que já foi secretário de Estado, ministro, presidente de Câmara e primeiro-ministro. Só lhe falta um grande cargo no currículo politico.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Desemprego e OE em dia

 

No caderno de Economia desta semana olhamos para o tempo de ‘vacas gordas’ para as grandes empresas que este ano têm apresentado maiores lucros. Destaque também para a Web Summit, pois se houver rescisão o Estado ainda terá de pagar os eventos até 2028. Olhamos ainda para a Efacec, para as carências habitacionais em vários municípios e para a possibilidade de recessão da economia portuguesa.

O desemprego na Europa

Esta sexta-feira o Eurostat deverá divulgar os dados das taxas de desemprego dos vários países europeus, no mês de setembro. Em Portugal, segundo os dados do INE, a taxa de desemprego subiu para 6,5% em setembro. Adicionalmente, o gabinete estatístico europeu deverá revelar os dados da distribuição do rendimento e desigualdade de rendimentos no ano passado.

O que quer o Bloco para o OE 2024?

A Comissão Coordenadora Distrital de Leiria do Bloco de Esquerda promove uma sessão pública sobre o Orçamento do Estado para 2024, com o eurodeputado José Gusmão. Segundo disse ao Expresso o deputado, o Bloco irá levar ao parlamento propostas de lei para a proibição da venda de casas a não residentes, a limitação do aumento das rendas em 0,46% e o fim do regime para não residentes.

Um projeto de inovação

O projeto Link Me Up juntou 13 institutos politécnicos portugueses e foi concebido para reforçar a cooperação destas instituições com o meio empresarial para a geração de ideias inovadoras e a criação de novas empresas. Hoje serão apresentados os resultados finais e estarão presentes os ministros António Costa Silva e Elvira Fortunato.

Os resultados da Semapa

Depois de na quinta-feira a EDP ter apresentado lucros de 946 milhões de euros até setembro, e de também os CTT, a NOS e a Corticeira Amorim terem reportado lucros, esta sexta-feira temos as contas de mais uma cotada portuguesa, a Semapa. Nos primeiros seis meses do ano a empresa lucrou 107,6 milhões de euros, um recuo de 23,9% face ao mesmo período do ano passado.

NOTÍCIAS E HISTÓRIAS QUE NÃO DEVE PERDER:

- Aeroporto: CTI contrata estudos a empresas e universidades ligadas a coordenadores, mas rejeita incompatibilidades

- Mercados antecipam corte de juros nos EUA em junho de 2024, mas Powell não confirma


Trabalhadores da Efacec assumem "entusiasmo com cautela"mas também "ansiedade" e "muitas dúvidas"

Progressões aceleram na Função Pública a partir de 2026: saiba o que vai mudar


E NAS NOSSAS RUBRICAS MULTIMEDIA:

Economia Dia a DiaNeste episódio falamos da Efacec e do seu longo processo de reprivatização.

Money Money Money: As taxas de juro estão a subir e já há vários bancos a pagar mais do que os Certificados de Aforro. Então, já compensa deixar o dinheiro no banco? Ouça aqui.

Por hoje, é tudo. Tenha uma excelente sexta-feira.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Quem são os maus desta guerra?

O corredor de saída da população de Gaza, rumo ao sul, fechou. A grande ofensiva das forças israelitas em território palestiniano, por terra, ar e mar, pode ter início a qualquer momento. Junto à fronteira está a maior concentração de tropas desde a guerra de 1973. A Força Aérea anunciou “uma abordagem agressiva” no apoio ao Exército. O objetivo é “erradicar” o Hamas, o movimento islamita que no passado dia 7 de outubro lançou um ataque terrorista contra Israel que matou 1400 pessoas e feriu 3500. Cerca de 155 terão sido raptadas, 6 das quais com nacionalidade luso-israelita.

“Os soldados estão prontos para derrotar o monstro sanguinário que se levantou contra nós para nos destruir”, afirmou o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. “Vamos atacá-los em todos sítios, vamos atacar todos os comandantes, todos os dirigentes e destruir infraestruturas. Vamos fazer algo grande e importante que vai mudar a situação durante muito tempo e de forma clara”, acrescentou o chefe das Forças Armadas, Herzi Halevi.

Mas Gaza já não é bem Gaza. Em uma semana, os bombardeamentos ininterruptos de retaliação contra a cidade destruíram bairros inteiros, centenas de prédios desmoronaram-se como casinhas de areia. O último balanço oficial aponta para 2670 vítimas mortais, 9600 feridos e mil desaparecidos debaixo dos escombros, a maioria civis, puxando os limites do legítimo direito à auto-defesa de Israel para a punição de todo um povo. “Até a guerra tem regras”, clama António Guterres, secretário Geral da ONU.

Cerca de um milhão de palestinianos abandonou entretanto a cidade, por uma única via de fuga, 25 quilómetros em linha reta, em fila contínua, de carros, carroças, camiões, animais ou a pé, até Khan Yunis, a segunda maior cidade. Ou 35 km para quem seguiu até Rafah. A vida quase toda deixada para trás, só um bocadinho ínfimo enfiado à pressa em trolleys, malas e sacos de plástico. Mas até aí há bombardeamentos, um camião lotado foi abatido por um rocket, 70 mortos num só alvo, como se o terror caminhasse com eles lado a lado. Não há abrigo certo para a morte, numa prisão a céu aberto do tamanho de Vila Real ou pouco maior que Vila Franca de Xira (369m2).

Muitos destes refugiados acumulam-se agora no extremo da Faixa junto ao Egito, que lhes trava a passagem pela única saída não controlada por Israel. Faltam alojamentos, comida, medicamentos. Há chão e relento, fome e choro. Do outro lado da fronteira, outra fila se forma, mas para entrar, de centenas de camiões de ONG que carregam os bens por que imploram os palestinianos. A ajuda também não tem autorização para seguir caminho, mas durante a madrugada, em Portugal, os Estados Unidos, Israel e o Egito terão concordado com um cessar-fogo nesta zona sul da Faixa de Gaza para permitir a abertura da passagem de Rafah, durante algumas horas, para a entrada do apoio humanitário e a saída de cidadãos estrangeiros, nomeadamente 600 norte-americanos. 

No centro da cidade de Gaza, nem todos os civis abandonaram a zona de evacuação obrigatória, assim ordenada por Israel “para sua segurança e proteção”, em milhares de panfletos lançados dos céus e mensagens de WhatsApp. Não é possível fechar os hospitais, completamente sobrelotados, alerta a Organização Mundial de Saúde. Entre os internados, 40% são crianças. “As ordens de evacuação são uma sentença de morte para os doentes e os feridos. Os profissionais de saúde vão permanecer ao seu lado”, garantiu o diretor-geral Tedros Adhanom. E nem só o ataque iminente os preocupa. Com o fornecimento energético cortado por Israel, as unidades estão a funcionar com geradores que ficam sem combustível dentro de alguns dias, alerta a ONU. E sem luz não há oxigénio, cirurgias, monitores. O abastecimento de água, também interrompido, deverá ser restabelecido mas apenas no sul do território.

As equipas das Nações Unidas presentes no terreno classificam a situação de catastrófica. “O espectro da morte paira sobre Gaza. Sem água, comida, energia e sem medicamentos, milhares vão morrer. Pura e simplesmente”, alerta Martin Griffiths, responsável máximo das Nações Unidas para os assuntos humanitários. Os palestinianos correm o sério risco de acabar como vítimas de uma nova “limpeza étnica em massa”, como em 1948, com a criação do Estado de Israel, quando 700 mil foram obrigados a abandonar as suas casas, denuncia a ONU.

E quando o cenário parecia não poder piorar, o Irão, que apoia financeira e militarmente o Hamas, deixa um aviso direto a Israel, antes da grande ofensiva. “Se as agressões sionistas não pararem, as mãos de todas as partes da região estão no gatilho”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amirabdollahian.

O conflito ameaça saltar fronteiras e subir níveis de ameaça com a provável entrada em cena do Hezbollah, outro movimento islamita também financiado pelo Irão, abrindo uma segunda frente de guerra no norte de Israel, na fronteira com o Líbano, de onde, esta semana, já foram lançados ataques mútuos. O perigo é tão real que vai arrancar, em breve, a evacuação de 28 localidades israelitas no raio de dois quilómetros até à raia.


quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O Senhor Feijóo

 


Olhando agora para o país vizinho, o rei de Espanha propôs ontem Alberto Núñez Feijóo para candidato a primeiro-ministro. Filipe VI anunciou indigitação do chefe do Partido Popular (PP, centro-direita) à presidente do Congresso dos Deputados, Francina Armengol, depois de ter recebido sete dos onze partidos políticos representados na câmara baixa das Cortes Gerais. Quatro deles apoiam Feijóo — além do seu, o Vox (extrema-direita) e os regionais Coligação Canária e União do Povo Navarro. Totalizam 172 deputados num total de 350, o que não será suficiente para Feijóo governar. É que para ser empossado precisa de 176 votos numa primeira ronda (maioria absoluta) ou, numa segunda ronda, mais votos a favor do que contra. Ora, os 178 deputados que faltam estão todos contra um Executivo presidido pelo líder popular.

A eleição da socialista Armengol para presidir ao Congresso contou com esses 178 votos, que o primeiro-ministro, Pedro Sánchez quer mobilizar para ser reconduzido. O chefe do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda) disse ao monarca que está em condições de tentar a investidura. Já lhe declararam apoio a frente de esquerda radical Somar, de Yolanda Díaz (parte da coligação de Governo cessante); o Bloco Nacionalista Galego; e o Unir o País Basco (Euskal Herria Bildu, sucessor do braço político dos terroristas da ETA). Dispostos a dialogar, mas não de forma incondicional, estão o Partido Nacionalista Basco (PNV, moderado) e os independentistas Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, e Juntos pela Catalunha (JxC). Este é chefiado a partir de Waterloo, Bélgica, pelo ex-presidente regional Carles Puigdemont.

Este foragido, que é eurodeputado e que seria preso se entrasse em Espanha, está acusado de delitos de rebelião, desvio de fundos públicos e desobediência, no quadro do processo pela intentona separatista de 2017, quando estava no poder. Amnistia para os envolvidos é uma das exigências do JxC e da ERC, depois de nove políticos catalães terem sido condenados e cumprido parte das suas penas de prisão (até serem indultados pelo Governo de Sánchez) e havendo centenas que ainda se habilitam à cadeia. É quase assente que a haver novo Executivo socialista, alguma forma jurídica surgirá para pôr fim às agruras judiciais dos de Puigdemont. Mais bicudo, porque a Constituição espanhola não o permite, é o pedido de um referendo de autodeterminação autorizado por Madrid (ao contrário do que houve em 2017).

Filipe VI terá querido manter a tradição de dar hipótese, primeiro, ao partido mais votado nas legislativas, no caso, as de 23 de julho. “No procedimento de consultas levado a cabo por Sua Majestade, o Rei, não se constatou, por agora, a existência de uma maioria suficiente para a investidura que, a dar-se o caso, fizesse decair este costume”, reza o comunicado da Casa Real. Cabe a Armengol marcar a sessão de investidura, que de momento parece fadada ao insucesso. Não há um prazo para esse debate e votação, que a presidente do Congresso fez saber que agendará após falar com Feijóo. Se os números falharem a este último, o processo de indigitação pode repetir-se. Importante ressalvar que a partir da primeira tentativa começa a contar o prazo de dois meses para formar Governo, findo o qual se marcam novas eleições.

Para evitar hipotéticas eleições no Natal ou no Ano Novo, Armengol terá de marcar a sessão de investidura até 31 de agosto ou a partir de 20 de setembro. Todas as forças políticas têm expressado a vontade de evitar voltar a convocar os espanhóis às urnas, um embaraço por que o país passou das últimas duas vezes que celebrou legislativas, em 2015 e 2019, e que seria mais inconveniente com Espanha a deter a presidência rotativa da União Europeia. Os próximos dias serão de frenesi de negociações em que Sánchez leva a dianteira. Pondo de lado a consulta popular sobre independência, a chave pode residir na supracitada amnistia (com este ou outro nome), no sistema de financiamento regional e em símbolos como os estatutos de autonomia e as línguas co-oficiais, cuja admissão no Parlamento já permitiu eleger Armengol.


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Onde ficou o 1,5º C?

 Acima de 6/10” foi como Boris Johnson classificou ontem o resultado da COP26 durante a conferência de imprensa de final de evento em Glasgow. As graças (e desgraças) alternaram-se enquanto o primeiro-ministro britânico e o presidente da Conferência do Clima das Nações Unidas, Alok Sharma, prestavam declarações tentando dourar a pílula de a Índia ter alterado à última da hora o texto do acordo sobre o abandono da utilização de carvão. Boris disse que “a COP26 marcou o início do fim do carvão” citando a declaração da Greenpeace*. Johnson e Sharma amortizaram a crítica à Índia frisando o compromisso do país em alcançar 50% de energias renováveis em 2030.


“poder da exigência das pessoas” está a ficar de tal maneira importante que daqui a poucos anos será inaceitável haver energia alimentada a carvão, disse Johnson ao mesmo tempos que Sharma resumia: “São inéditos históricos”. “Um pacto imperfeito, mas o único possível”.

Jennifer Morgan, diretora-executiva da Greenpeace International reagiu assim ao acordo: “É brando, é fraco e a meta dos 1,5º C está apenas viva, mas enviou-se um sinal de que a era do carvão está a acabar. E isso importa”*.

Depois de duas semanas de trabalhos, os 190 países chegaram a um acordo cujos defensores classificam como capaz de manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5º C relativamente à era pré-industrial, o limiar de segurança traçado no Acordo de Paris em 2015. As negociações dos governos alinharam um cocktail de abandono do uso do carvãocorte das emissões de gases com efeito de estufa e financiamento dos países mais pobres. Só as vítimas que já existem das alterações climáticas, na sua maioria pobres e sem alternativas, a quem é devida compensação pelas “perdas e danos” ficaram a ver navios, ainda que ficasse claro que não há como escapar disto no futuro.

Leia aqui uma antevisão do mundo sem acordo climático em 1 de janeiro de 2100.

O “pacto do clima de Glasgow” foi adotado apesar da intervenção de última hora da Índia que substituiu “abandono” por “redução” do uso de carvão. Entre “fazer história” e a fúria por desilusão absoluta para muitos ambientalistas presentes na cidade escocesa, o que os países participantes acordaram foi voltar à mesa das negociações no próximo ano. Na conferência a realizar no Egito, “vão re-examinar os planos nacionais com vista a aumentar a ambição nos cortes”.

Um passinho para resolver uma questão gigantesca, como resume a Vox. Aqui uma opinião que defende um resultado de meio copo cheio.

O secretário-geral da ONU insistiu na urgência: “O nosso planeta frágil está por um fio. Ainda estamos a bater à porta da catástrofe climática. É tempo de entrarmos em modo de emergência - ou a nossa hipótese de alcançar zero [emissões] será zero”, disse António Guterres.

Há duas semanas, a ativista sueca Greta Thunberg resumiu o sentimento das gerações mais novas relativamente ao discurso político: “Bla bla bla”.


OUTRAS NOTÍCIAS

Hoje é dia de cimeira virtual entre Joe Biden e Xi Jinping. Segue-se a um telefonema entre os líderes das maiores economias em competição, Estados Unidos e China, que aconteceu em 9 de setembro. Pontos prováveis da agenda: tensões comerciais e militares, alterações climáticas, Taiwan e direitos humanos?

Três homens foram presos no âmbito da legislação anti-terrorismo após uma explosão num taxi à porta do Hospital das Mulheres de Liverpool, Reino Unido, que matou o passageiro. Os homens, de 29, 26 e 21 anos, foram detidos na área da Kesington daquela cidade e presos de acordo com a Lei do Terrorismo, declarou a polícia.

Volta Kabila! A fraude eleitoral pode ainda não ter acontecido, mas os eleitores da República Democrática do Congo já saíram à rua a exigir a despolitização da Comissão Nacional Eleitoral em protesto contra a nomeação, pelo Presidente Felix Tshisekedi, de um amigo seu para a direção daquela instituição. Tolerância zero às interferências nas eleições: “Dizemos NÃO à fraude eleitoral!”.

1185 pessoas atravessaram o Canal da Mancha num só dia em 33 pequenos barcos, confirmou o Home Office. As autoridades francesas completaram a informação dizendo que tinham impedido 99 outros barcos de alcançar o Reino Unido. Até esta data, 22 mil pessoas atravessaram o estreito este ano, duas vezes mais do que em 2020. Tensão migratória na fronteira da Bielorrússia com a Polónia não abranda.

Confinamento. Todos os não vacinados contra a covid-19 ou não recuperados da doença na Áustria estão sujeitos a confinamento a partir de hoje. A subida do número de casos é a justificação. A Holanda regressa também ao confinamento apesar de ter 80% da população vacinada. Alemanha idem. Confira a série de medidas que já estão a avançar para conter a covid-19.

15. Foi o número de mortes por covid-19 em Portugal no domingo, o mais alto desde 26 agosto. Houve 465 internamentos.

“Uma pandemia misturada com uma crise política e económica não é caso inédito em Portugal”. Nem sempre a crise política prejudica a economia.

“Atraso na entrega de carros novos faz subir o preço dos usados em 20%”, escreve o Publico em manchete: escassez de semicondutores obriga fabricantes a reduzir a produção; “Se tiver vergonha demite-se”, escreve o jornal i referindo os negócios agrícolas de Inês Sousa Real, porta-voz do PAN; “Eleições diretas no PSD: quotas em atraso na Madeira arriscam-se a ser decisivas no duelo entre Rio e Rangel”, escreve hoje o DN na primeira página; “Divórcios e escrituras por videoconferência afinal não avançam”, esclarece o JN.

Portugal-Sérvia“péssimo jogo”. Portugal falha acesso direto ao Mundial 2022 (capa do público de hoje), um “banho gelado na Luz”.

FRASES
“Poderia ter sido pior, mas os nossos líderes falharam-nos na COP26. É esta a verdade”John Vidal, Editor de Ambiente no jornal “The Guardian”

“Nas cidades nós somos os fazedores em contraste com os governos nacionais que só atrasam, dando pontapés na lata para 2040 e 2050”Sadik Kahn, Presidente da câmara de Londres e líder do C40, um grupo das maiores 97 cidades representando 700 milhões de habitantes e 1/4 da economia global

“A situação [da covid-19] ´é grave. Não tomamos esta medida de ânimo leve, mas infelizmente ela é necessária”Alexander Shallenberg, Chanceler da Áustria referindo-se ao confinamento a partir desta segunda-feira

“Um que fosse já era grave”D. Américo Aguiar, o bispo auxiliar de Lisboa referia ao Sapo 24 o desconhecimento do número de casos de abuso na Igreja portuguesa