quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Quem são os maus desta guerra?

O corredor de saída da população de Gaza, rumo ao sul, fechou. A grande ofensiva das forças israelitas em território palestiniano, por terra, ar e mar, pode ter início a qualquer momento. Junto à fronteira está a maior concentração de tropas desde a guerra de 1973. A Força Aérea anunciou “uma abordagem agressiva” no apoio ao Exército. O objetivo é “erradicar” o Hamas, o movimento islamita que no passado dia 7 de outubro lançou um ataque terrorista contra Israel que matou 1400 pessoas e feriu 3500. Cerca de 155 terão sido raptadas, 6 das quais com nacionalidade luso-israelita.

“Os soldados estão prontos para derrotar o monstro sanguinário que se levantou contra nós para nos destruir”, afirmou o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. “Vamos atacá-los em todos sítios, vamos atacar todos os comandantes, todos os dirigentes e destruir infraestruturas. Vamos fazer algo grande e importante que vai mudar a situação durante muito tempo e de forma clara”, acrescentou o chefe das Forças Armadas, Herzi Halevi.

Mas Gaza já não é bem Gaza. Em uma semana, os bombardeamentos ininterruptos de retaliação contra a cidade destruíram bairros inteiros, centenas de prédios desmoronaram-se como casinhas de areia. O último balanço oficial aponta para 2670 vítimas mortais, 9600 feridos e mil desaparecidos debaixo dos escombros, a maioria civis, puxando os limites do legítimo direito à auto-defesa de Israel para a punição de todo um povo. “Até a guerra tem regras”, clama António Guterres, secretário Geral da ONU.

Cerca de um milhão de palestinianos abandonou entretanto a cidade, por uma única via de fuga, 25 quilómetros em linha reta, em fila contínua, de carros, carroças, camiões, animais ou a pé, até Khan Yunis, a segunda maior cidade. Ou 35 km para quem seguiu até Rafah. A vida quase toda deixada para trás, só um bocadinho ínfimo enfiado à pressa em trolleys, malas e sacos de plástico. Mas até aí há bombardeamentos, um camião lotado foi abatido por um rocket, 70 mortos num só alvo, como se o terror caminhasse com eles lado a lado. Não há abrigo certo para a morte, numa prisão a céu aberto do tamanho de Vila Real ou pouco maior que Vila Franca de Xira (369m2).

Muitos destes refugiados acumulam-se agora no extremo da Faixa junto ao Egito, que lhes trava a passagem pela única saída não controlada por Israel. Faltam alojamentos, comida, medicamentos. Há chão e relento, fome e choro. Do outro lado da fronteira, outra fila se forma, mas para entrar, de centenas de camiões de ONG que carregam os bens por que imploram os palestinianos. A ajuda também não tem autorização para seguir caminho, mas durante a madrugada, em Portugal, os Estados Unidos, Israel e o Egito terão concordado com um cessar-fogo nesta zona sul da Faixa de Gaza para permitir a abertura da passagem de Rafah, durante algumas horas, para a entrada do apoio humanitário e a saída de cidadãos estrangeiros, nomeadamente 600 norte-americanos. 

No centro da cidade de Gaza, nem todos os civis abandonaram a zona de evacuação obrigatória, assim ordenada por Israel “para sua segurança e proteção”, em milhares de panfletos lançados dos céus e mensagens de WhatsApp. Não é possível fechar os hospitais, completamente sobrelotados, alerta a Organização Mundial de Saúde. Entre os internados, 40% são crianças. “As ordens de evacuação são uma sentença de morte para os doentes e os feridos. Os profissionais de saúde vão permanecer ao seu lado”, garantiu o diretor-geral Tedros Adhanom. E nem só o ataque iminente os preocupa. Com o fornecimento energético cortado por Israel, as unidades estão a funcionar com geradores que ficam sem combustível dentro de alguns dias, alerta a ONU. E sem luz não há oxigénio, cirurgias, monitores. O abastecimento de água, também interrompido, deverá ser restabelecido mas apenas no sul do território.

As equipas das Nações Unidas presentes no terreno classificam a situação de catastrófica. “O espectro da morte paira sobre Gaza. Sem água, comida, energia e sem medicamentos, milhares vão morrer. Pura e simplesmente”, alerta Martin Griffiths, responsável máximo das Nações Unidas para os assuntos humanitários. Os palestinianos correm o sério risco de acabar como vítimas de uma nova “limpeza étnica em massa”, como em 1948, com a criação do Estado de Israel, quando 700 mil foram obrigados a abandonar as suas casas, denuncia a ONU.

E quando o cenário parecia não poder piorar, o Irão, que apoia financeira e militarmente o Hamas, deixa um aviso direto a Israel, antes da grande ofensiva. “Se as agressões sionistas não pararem, as mãos de todas as partes da região estão no gatilho”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amirabdollahian.

O conflito ameaça saltar fronteiras e subir níveis de ameaça com a provável entrada em cena do Hezbollah, outro movimento islamita também financiado pelo Irão, abrindo uma segunda frente de guerra no norte de Israel, na fronteira com o Líbano, de onde, esta semana, já foram lançados ataques mútuos. O perigo é tão real que vai arrancar, em breve, a evacuação de 28 localidades israelitas no raio de dois quilómetros até à raia.


quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O Senhor Feijóo

 


Olhando agora para o país vizinho, o rei de Espanha propôs ontem Alberto Núñez Feijóo para candidato a primeiro-ministro. Filipe VI anunciou indigitação do chefe do Partido Popular (PP, centro-direita) à presidente do Congresso dos Deputados, Francina Armengol, depois de ter recebido sete dos onze partidos políticos representados na câmara baixa das Cortes Gerais. Quatro deles apoiam Feijóo — além do seu, o Vox (extrema-direita) e os regionais Coligação Canária e União do Povo Navarro. Totalizam 172 deputados num total de 350, o que não será suficiente para Feijóo governar. É que para ser empossado precisa de 176 votos numa primeira ronda (maioria absoluta) ou, numa segunda ronda, mais votos a favor do que contra. Ora, os 178 deputados que faltam estão todos contra um Executivo presidido pelo líder popular.

A eleição da socialista Armengol para presidir ao Congresso contou com esses 178 votos, que o primeiro-ministro, Pedro Sánchez quer mobilizar para ser reconduzido. O chefe do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda) disse ao monarca que está em condições de tentar a investidura. Já lhe declararam apoio a frente de esquerda radical Somar, de Yolanda Díaz (parte da coligação de Governo cessante); o Bloco Nacionalista Galego; e o Unir o País Basco (Euskal Herria Bildu, sucessor do braço político dos terroristas da ETA). Dispostos a dialogar, mas não de forma incondicional, estão o Partido Nacionalista Basco (PNV, moderado) e os independentistas Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, e Juntos pela Catalunha (JxC). Este é chefiado a partir de Waterloo, Bélgica, pelo ex-presidente regional Carles Puigdemont.

Este foragido, que é eurodeputado e que seria preso se entrasse em Espanha, está acusado de delitos de rebelião, desvio de fundos públicos e desobediência, no quadro do processo pela intentona separatista de 2017, quando estava no poder. Amnistia para os envolvidos é uma das exigências do JxC e da ERC, depois de nove políticos catalães terem sido condenados e cumprido parte das suas penas de prisão (até serem indultados pelo Governo de Sánchez) e havendo centenas que ainda se habilitam à cadeia. É quase assente que a haver novo Executivo socialista, alguma forma jurídica surgirá para pôr fim às agruras judiciais dos de Puigdemont. Mais bicudo, porque a Constituição espanhola não o permite, é o pedido de um referendo de autodeterminação autorizado por Madrid (ao contrário do que houve em 2017).

Filipe VI terá querido manter a tradição de dar hipótese, primeiro, ao partido mais votado nas legislativas, no caso, as de 23 de julho. “No procedimento de consultas levado a cabo por Sua Majestade, o Rei, não se constatou, por agora, a existência de uma maioria suficiente para a investidura que, a dar-se o caso, fizesse decair este costume”, reza o comunicado da Casa Real. Cabe a Armengol marcar a sessão de investidura, que de momento parece fadada ao insucesso. Não há um prazo para esse debate e votação, que a presidente do Congresso fez saber que agendará após falar com Feijóo. Se os números falharem a este último, o processo de indigitação pode repetir-se. Importante ressalvar que a partir da primeira tentativa começa a contar o prazo de dois meses para formar Governo, findo o qual se marcam novas eleições.

Para evitar hipotéticas eleições no Natal ou no Ano Novo, Armengol terá de marcar a sessão de investidura até 31 de agosto ou a partir de 20 de setembro. Todas as forças políticas têm expressado a vontade de evitar voltar a convocar os espanhóis às urnas, um embaraço por que o país passou das últimas duas vezes que celebrou legislativas, em 2015 e 2019, e que seria mais inconveniente com Espanha a deter a presidência rotativa da União Europeia. Os próximos dias serão de frenesi de negociações em que Sánchez leva a dianteira. Pondo de lado a consulta popular sobre independência, a chave pode residir na supracitada amnistia (com este ou outro nome), no sistema de financiamento regional e em símbolos como os estatutos de autonomia e as línguas co-oficiais, cuja admissão no Parlamento já permitiu eleger Armengol.


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Onde ficou o 1,5º C?

 Acima de 6/10” foi como Boris Johnson classificou ontem o resultado da COP26 durante a conferência de imprensa de final de evento em Glasgow. As graças (e desgraças) alternaram-se enquanto o primeiro-ministro britânico e o presidente da Conferência do Clima das Nações Unidas, Alok Sharma, prestavam declarações tentando dourar a pílula de a Índia ter alterado à última da hora o texto do acordo sobre o abandono da utilização de carvão. Boris disse que “a COP26 marcou o início do fim do carvão” citando a declaração da Greenpeace*. Johnson e Sharma amortizaram a crítica à Índia frisando o compromisso do país em alcançar 50% de energias renováveis em 2030.


“poder da exigência das pessoas” está a ficar de tal maneira importante que daqui a poucos anos será inaceitável haver energia alimentada a carvão, disse Johnson ao mesmo tempos que Sharma resumia: “São inéditos históricos”. “Um pacto imperfeito, mas o único possível”.

Jennifer Morgan, diretora-executiva da Greenpeace International reagiu assim ao acordo: “É brando, é fraco e a meta dos 1,5º C está apenas viva, mas enviou-se um sinal de que a era do carvão está a acabar. E isso importa”*.

Depois de duas semanas de trabalhos, os 190 países chegaram a um acordo cujos defensores classificam como capaz de manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5º C relativamente à era pré-industrial, o limiar de segurança traçado no Acordo de Paris em 2015. As negociações dos governos alinharam um cocktail de abandono do uso do carvãocorte das emissões de gases com efeito de estufa e financiamento dos países mais pobres. Só as vítimas que já existem das alterações climáticas, na sua maioria pobres e sem alternativas, a quem é devida compensação pelas “perdas e danos” ficaram a ver navios, ainda que ficasse claro que não há como escapar disto no futuro.

Leia aqui uma antevisão do mundo sem acordo climático em 1 de janeiro de 2100.

O “pacto do clima de Glasgow” foi adotado apesar da intervenção de última hora da Índia que substituiu “abandono” por “redução” do uso de carvão. Entre “fazer história” e a fúria por desilusão absoluta para muitos ambientalistas presentes na cidade escocesa, o que os países participantes acordaram foi voltar à mesa das negociações no próximo ano. Na conferência a realizar no Egito, “vão re-examinar os planos nacionais com vista a aumentar a ambição nos cortes”.

Um passinho para resolver uma questão gigantesca, como resume a Vox. Aqui uma opinião que defende um resultado de meio copo cheio.

O secretário-geral da ONU insistiu na urgência: “O nosso planeta frágil está por um fio. Ainda estamos a bater à porta da catástrofe climática. É tempo de entrarmos em modo de emergência - ou a nossa hipótese de alcançar zero [emissões] será zero”, disse António Guterres.

Há duas semanas, a ativista sueca Greta Thunberg resumiu o sentimento das gerações mais novas relativamente ao discurso político: “Bla bla bla”.


OUTRAS NOTÍCIAS

Hoje é dia de cimeira virtual entre Joe Biden e Xi Jinping. Segue-se a um telefonema entre os líderes das maiores economias em competição, Estados Unidos e China, que aconteceu em 9 de setembro. Pontos prováveis da agenda: tensões comerciais e militares, alterações climáticas, Taiwan e direitos humanos?

Três homens foram presos no âmbito da legislação anti-terrorismo após uma explosão num taxi à porta do Hospital das Mulheres de Liverpool, Reino Unido, que matou o passageiro. Os homens, de 29, 26 e 21 anos, foram detidos na área da Kesington daquela cidade e presos de acordo com a Lei do Terrorismo, declarou a polícia.

Volta Kabila! A fraude eleitoral pode ainda não ter acontecido, mas os eleitores da República Democrática do Congo já saíram à rua a exigir a despolitização da Comissão Nacional Eleitoral em protesto contra a nomeação, pelo Presidente Felix Tshisekedi, de um amigo seu para a direção daquela instituição. Tolerância zero às interferências nas eleições: “Dizemos NÃO à fraude eleitoral!”.

1185 pessoas atravessaram o Canal da Mancha num só dia em 33 pequenos barcos, confirmou o Home Office. As autoridades francesas completaram a informação dizendo que tinham impedido 99 outros barcos de alcançar o Reino Unido. Até esta data, 22 mil pessoas atravessaram o estreito este ano, duas vezes mais do que em 2020. Tensão migratória na fronteira da Bielorrússia com a Polónia não abranda.

Confinamento. Todos os não vacinados contra a covid-19 ou não recuperados da doença na Áustria estão sujeitos a confinamento a partir de hoje. A subida do número de casos é a justificação. A Holanda regressa também ao confinamento apesar de ter 80% da população vacinada. Alemanha idem. Confira a série de medidas que já estão a avançar para conter a covid-19.

15. Foi o número de mortes por covid-19 em Portugal no domingo, o mais alto desde 26 agosto. Houve 465 internamentos.

“Uma pandemia misturada com uma crise política e económica não é caso inédito em Portugal”. Nem sempre a crise política prejudica a economia.

“Atraso na entrega de carros novos faz subir o preço dos usados em 20%”, escreve o Publico em manchete: escassez de semicondutores obriga fabricantes a reduzir a produção; “Se tiver vergonha demite-se”, escreve o jornal i referindo os negócios agrícolas de Inês Sousa Real, porta-voz do PAN; “Eleições diretas no PSD: quotas em atraso na Madeira arriscam-se a ser decisivas no duelo entre Rio e Rangel”, escreve hoje o DN na primeira página; “Divórcios e escrituras por videoconferência afinal não avançam”, esclarece o JN.

Portugal-Sérvia“péssimo jogo”. Portugal falha acesso direto ao Mundial 2022 (capa do público de hoje), um “banho gelado na Luz”.

FRASES
“Poderia ter sido pior, mas os nossos líderes falharam-nos na COP26. É esta a verdade”John Vidal, Editor de Ambiente no jornal “The Guardian”

“Nas cidades nós somos os fazedores em contraste com os governos nacionais que só atrasam, dando pontapés na lata para 2040 e 2050”Sadik Kahn, Presidente da câmara de Londres e líder do C40, um grupo das maiores 97 cidades representando 700 milhões de habitantes e 1/4 da economia global

“A situação [da covid-19] ´é grave. Não tomamos esta medida de ânimo leve, mas infelizmente ela é necessária”Alexander Shallenberg, Chanceler da Áustria referindo-se ao confinamento a partir desta segunda-feira

“Um que fosse já era grave”D. Américo Aguiar, o bispo auxiliar de Lisboa referia ao Sapo 24 o desconhecimento do número de casos de abuso na Igreja portuguesa

Função pública, CMVM e Lagarde: os assuntos que vão marcar o dia

O Governo tem marcada para hoje mais uma reunião com os sindicatos da função pública, mas também hoje é apresentado o novo líder do supervisor do mercado de capitais. Na agenda está também a apresentação dos resultados do aumento de capital da Ibersol, bem como a ida da presidente do BCE, Christine Lagarde, ao Parlamento Europeu.


Governo reúne-se com sindicatos da função pública

A ministra da Administração Pública, Alexandra Leitão, reúne-se esta segunda-feira com representantes da Frente Comum, Frente Sindical e FESAP, no quadro da negociação coletiva relativa aos funcionários públicos. A ministra já afirmou que “qualquer eventual avanço que possa haver é muito limitado”, num quadro de gestão orçamental em duodécimos.

Novo presidente da CMVM

O ministro das Finanças, João Leão, apresenta esta segunda-feira em Lisboa o novo presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Gabriel Bernardino, que sucede a Gabriela Figueiredo Dias. Pode ler aqui: quais os desafios que Bernardino tem pela frente.

Lagarde ouvida no Parlamento Europeu

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, falará na comissão de Economia do Parlamento Europeu. Na agenda estarão as projeções de inflação do BCE, os custos da habitação e a melhoria da prestação de contas da instituição liderada por Lagarde.

Mota-Engil emite até 75 milhões em obrigações

A construtora Mota-Engil tem em marcha um empréstimo obrigacionista de até 75 milhões de euros. O período de subscrição, por parte dos investidores, arranca esta segunda-feira. A empresa colocará no mercado títulos que vencem em 2026, oferecendo um juro de 4,25% ao ano, em termos brutos. A operação é coordenada pelos bancos Finantia, Caixa BI, Haitong e Novobanco.

Aumento de capital da Ibersol

Ainda esta segunda-feira a Ibersol, que em Portugal opera marcas de restauração como a Burger King, KFC, Pizza Hut e Pans & Company, deverá anunciar o resultado da operação de aumento de capital de até 40 milhões de euros. O Santander e o Millennium BCP coordenam a operação. As novas ações serão admitidas à negociação na Euronext a 19 de novembro.


NOTÍCIAS E HISTÓRIAS QUE NÃO PODE PERDER

Minuto Consumidor: Vale a pena comprar ouro?

- As crises políticas fazem mal à economia? Nem sempre

- Preparados para melhorar o Portugal 2030? Discussão pública arranca esta segunda-feira

- Camaleão de 70 milhões move-se com pé em Silicon Valley e outro em Portugal

- Os segredos do grupo da União Europeia que vigia a concorrência fiscal

Tenha uma boa segunda-feira e um excelente início de semana

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Campanha já arrancou

 


Horas depois do chumbo do Orçamento por 108 votos a favor, 117 contra e cinco abstenções, o primeiro-ministro entregava-se ao “período ‘pós-geringonça’, de caça ao voto útil”. António Costa saiu com os seus ministros “derrotados pelos antigos parceiros”.

A data das novas eleições tem de acontecer entre 55 ou 60 dias após a dissolução do Parlamento e “Portugal forçado a ir a votos”, como se lê na manchete do Público, faz Costa a agitar o fantasma do regresso da direita. “O país nas mãos de Marcelo”, escreve  o jornal i, adiantado que o Presidente da República “deverá marcar eleições para a primeira ou segunda semana de fevereiro para dar tempo a Paulo Rangel, caso este saia vencedor das diretas do PSD”. “O que vem a seguir”, escreve o DN, explicitando que a crise política leva o país a eleições antecipadas para as quais a campanha arrancou: “António Costa já começou a ensaiar o discurso da maioria absoluta”.

A data a anunciar pelo PR depende dos prazos constitucionais para a convocação de eleições antecipadas, que só começam a contar depois de assinado o decreto presidencial da dissolução da Assembleia (55 ou 60 dias depois). “E Marcelo, que anda há semanas a dizer que se o Orçamento chumbar inicia “logo, logo” os procedimentos para dissolver a Assembleia, poderá querer esgotar todas as possibilidades antes de o fazer. Isso pode levar algum tempo. E só no fim disso é que assina o decreto de dissolução e os 60 dias começam a contar. Todos os dias contam”.

A agenda consigna Portugal a meses de limbo político precisamente na altura em que o Governo deveria estimular a economia após a pandemia de covid-19 aplicando €45 mil milhões de ajuda vindos da União Europeiaescreve o britânico “The Guardian”.

A partir do momento em que a Assembleia for dissolvida, os trabalhos no Parlamento ficam comprometidos, como os processos legislativos que estiverem em curso, escreve o Público, lembrando que “mesmo que um diploma já tenha sido aprovado no plenário e seguido para o debate na especialidade, morre ali”.

O regime de duodécimos, que entrará em vigor em 2022 devido à prorrogação da vigência do Orçamento do Estado de 2021, limita a execução mensal ao dividir por 12 o orçamento para este ano até haver um novo orçamento. Aquele regime enquadra-se no regime transitório de execução orçamental, que entra em campo quando há “rejeição da proposta de lei do Orçamento do Estado”, tal como aconteceu. O Marcelo falará ao país em 4 ou 5 de novembro.


OUTRAS NOTÍCIAS

O Sudão foi  suspenso pelo Conselho da União Africana até que o poder volte a ser entregue ao Governo de transição liderado por civis. A justificação desta medida, que é típica desta organização multilateral em caso de golpe de Estado, ficará em vigor até que a liderança do Governo volte aos civis dos quais foi tomada pelos militares, após de  terem neutralizado o primeiro-ministro Abdalla Hamdok e outros ministros, invocando o perigo de uma guerra civil. Os cidadãos não abandonam as ruas e está em curso uma campanha de desobediência civil liderada pelos principais sindicatos e à qual aderiram camadas importantes da sociedade civil como donos de petrolíferas e médicos. O Banco Mundial e os Estados Unidos pressionaram com a suspensão da ajuda à República do Sudão.

COP26. Confusos e desconfiados: bastariam os três primeiros títulos das notícias sobre a conferência do clima da ONU na Sky News para o arranque de uma telenovela cómica: “A Rainha Isabel II, 95 anos, não vai infelizmente participar”; “Boris Johnson está preocupado que a COP26 não venha a ser um sucesso” e “Sir David Attenborough avisa os líderes políticos de que se não agirem agora poderá ser tarde demais”. O assunto mais quente (literalmente) do planeta tem estado a ser desbaratado entre interesses e desinformação, como o prova parcialmente um inquérito da YouGov exclusivo para a Sky: 54% dos inquiridos não confiam em jornalistas, 67% desconfiam do que dizem os políticos sobre o assunto e 71% não confiam em influencers online. O resultado é a Sky ter de começar esta matéria explicando as razões pelas quais as pessoas podem confiar na informação veiculada pela estação fazendo prever a pouca probabilidade de serem discutidas em profundidade (e ainda menos aprovadas) as medidas para agir contra o desastre anunciado. 

Sicília submersa. Entretanto, as ruas da cidade de Catania transformaram-se em rios em minutos. “Medicane” é um fenómenos que junta a palavra Mediterrâneo a Hurricane (furacão em inglês) e que descreve a massa de água que caiu em horas, inundando a cidade ao nível dos pisos térreos. Em meio dia caiu na Sicília a chuva de um mês.

Alterações climáticas e décadas de má gestão humana da água já comprometeram o futuro da agricultura na Grécia.

Implicações históricas. Teste de míssil chinês é “muito próximo” do momento Sputnik, diz o general norte-americano de topo Mark Milley.

5G. Chegou ao fim, depois de 201 dias, o leilão da quinta geração da rede móvel e o Estado arrecada 566,8 milhões de euros. Leia aqui todos os pormenores.

1 milhão/dia. A Polónia vai ter de pagar uma multa diária à União no valor de 1 milhão de euros se não desistir das suas alterações judiciárias, que criaram uma câmara disciplinar. A decisão é do Tribunal Europeu de Justiça e prevê que, em caso de falta de pagamento, que Varsóvia não receba da Europa os montantes devidos, revertendo estes a favor do orçamento europeu.

Privacidade. O Whatsapp é melhor do que o Facebook, sua empresa-mãe, a respeitar a privacidade dos seus utilizadores? Parece bem que não

Há problemas na produção e dificuldades na distribuiçãoos alimentos podem vir a faltar em Portugal?

Peculato. A ex-presidente da junta de freguesia de Arroios, em Lisboa, Margarida Martins, foi constituída arguida, suspeita de crimes cometidos no exercício de funções públicas, peculato de uso e participação económica em negócioO início da investigação data de 2018.

Covid-19. Mais infeções, maior incidência e transmissibilidade. Dois especialistas em saúde pública internacional ajudam a ler os números em Portugal.

FRASES
“Junto a minha frustração à frustração dos dois milhões setecentos mil e quarenta eleitores que votaram pela continuidade da ‘geringonça’”António Costa, primeiro-ministro

“Acho que a esquerda pode ser muito mais do que a não-direita ou a mera oposição à direita. A esquerda tem todo o potencial para construir futuro e levar o nosso país mais além, não está condenada ao protesto e pode ser o governo equilibrado, responsável que é capaz de transformar o país”António Costa

“Há seis anos os portugueses escolheram um caminho”Ana Catarina Mendes, presidente do grupo parlamentar do PS

“Quero dizer com toda a clareza: a União Europeia tem de parar de falar apenas sobre Política Comum de Segurança e Defesa e começar a entregar essa segurança à sua populaçao”Klaudia Tanner, ministra da Defesa da Áustria referindo a iminência de um apagão no país


Mantenhas.