segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Luanda Leaks: O ruir de um império

Bom dia,
depois de no passado dia 19 ter sido lançada pelo consórcio de jornalismo de investigação ICIJ o resultado da mega-investigação jornalística Luanda Leaks, sobre a fortuna colocassal de Isabel dos Santos, muito aconteceu e de forma muito acelerada.

O Expresso e a SIC, associados a esta investigação internacional, foram divulgando ao longo da semana um conjunto de trabalhos jornalísticos que mostravam, com acesso a provas documentais, a forma como a filha do antigo presidente angolano José Eduardo dos Santos fez crescer a sua fortuna e desviou milhões e milhões da poderosa empresa estatal Sonangol em seu benefício, e do seu marido, o congolês Sindica Donkolo.

No sábado a edição que Expresso já tinha disponível apresentou ainda um vasto leque de textos e trabalhos que não deve mesmo deixar de ler.
Deixo-lhe alguns exemplos:
O sonho megalómano, com dinheiros e terrenos públicos, que a filha de José Eduardo dos Santos viu o pai aprovar para a frente marítima de Luanda, terminou num pesadelo para milhares de desalojados.
Dividendos da Sonangol retidos em Cabo Verde
Topo do EuroBic envolvido com Dubai
EuroBic só tinha dois funcionários a tempo inteiro para controlar lavagem de dinheiro
Círculo de confiança: fortuna nas mãos de cinco pessoas
Milhões para o Mónaco saíram de conta no BPI

Offshore de Isabel dos Santos em Man montado em Lisboa
Procurador-Geral de Angola: “Portugueses envolvidos devem ser julgados em Angola

Luanda Leaks

Caro leitor consulte este sitio: https://expresso.pt/luanda-leaks

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A proposta de Orçamento do Estado para 2020 e outras notícias

Um plano de "continuidade" que contempla a "melhoria de rendimentos, apoio à modernização das empresas" e "reforço do investimento na qualidade dos serviços públicos", tudo isto sem negligenciar as "contas certas". Foi desta forma, através da rede social Twitter, que António Costa resumiu a proposta de Orçamento do Estado para 2020, aprovada pelo conselho de ministros no sábado passado, após nove horas de uma reunião tensa, e que Mário Centeno vai entregar esta segunda-feira na Assembleia da República.

Sobre as grandes metas para o próximo ano, a proposta prevê uma situação inédita na história do regime democrático. Pela primeira vez, se o Orçamento for cumprido de acordo com os planos do ministro das Finanças, as contas das administrações públicas encerrarão o ano com um saldo positivo. Este será a expressão mais eloquente de um percurso de compressão do desequilíbrio crónico entre despesas e receitas públicas que, para o bem e para o mal, começou a ser atravessado depois de a situação de pré-bancarrota de 2011 ter lançado o país para o terceiro pedido de ajuda financeira aos credores internacionais desde 1974, sob o compromisso de cumprir um apertado programa de ajustamento, em tempo de execução e em recursos disponibilizados.

O objetivo do Governo de atingir o final de Dezembro de 2020 com um superávit correspondente a 0,2% do produto interno bruto (PIB) é vistoso? É. Mas a verdade é que a folga de Mário Centeno para conquistar um lugar no panteão dos ministros das Finanças é ainda mais elevada, como explica João Silvestre. Caso Centeno não tivesse de enfrentar a necessidade de se proceder a (mais) uma injecção de capital no sorvedouro de dinheiro fresco chamado Novo Banco, bem como de satisfazer os acertos fiscais a efectuar em favor dos bancos, naquilo que a gíria técnica designa como "ativos por impostos diferidos", o saldo positivo poderia rondar 0,6% do valor do produto que se prevê venha a ser gerado pela economia portuguesa durante o ano que vem.

Aparentemente, aquilo que já se conhece faz da proposta de Orçamento do Estado que o parlamento discutirá no início de Janeiro, um documento merecedor de ser carimbado com o selo das "contas certas". Faz, pelo menos, o necessário para que, com a preciosa e decisiva ajuda do Banco Central Europeu, as taxas de juro a que o país pede dinheiro emprestado se mantenham baixas, pormenor da maior importância num momento em que o fardo da dívida do Estado em relação ao PIB equivale ao dobro do nível de 60% que as regras do euro impõem. Mas olhar para as grandes metas e ignorar como vão ser atingidas é semelhante a contemplar a superfície de um mar calmo e ficar-se convencido que nas profundezas reina a tranquilidade, isto é, que a consolidação das finanças públicas conseguida nos anos mais recentes é sólida e consistente.

A austeridade orçamental, na versão adoptada por António Costa e Mário Centeno, é uma escolha política com duas prioridades: mostrar um desempenho de bom aluno a Bruxelas e aos credores e garantir, em simultâneo, que os parceiros da esquerda fecham os olhos e asseguram a sobrevivência do Governo. Por estes dias, com as diferenças que resultam do facto de a geringonça ter de continuar a funcionar na actual legislatura mas sem papel assinado, vai repetir-se a coreografia da negociação de medidas avulsas, seguida da luta pelos louros daquelas que se mostrem mais populares e rentáveis nas mesas de voto. A dança já começou, como escrevem David Dinis e Mariana Lima Cunha. O Governo reservou dinheiro para acorrer às reivindicações do PCP e do Bloco de Esquerda, pelo menos, e já assumiu compromissos com o PSD/Madeira, uma táctica que faz recordar os tempos de António Guterres e dos "orçamentos limianos".

De resto, por falta de condições políticas ou de vontade ou, ainda, devido à dura constatação de que Vítor Gaspar sabia do que estava a falar quando garantia que não havia dinheiro, tudo indica que o ataque aos problemas de fundo não estará no horizonte próximo do Governo. Um exemplo? O dinheiro destinado ao depauperado sector da Saúde é "para entreter", de acordo com antigos e actuais responsáveis da área, escreve Vera Lúcia Arreigoso. E Marcelo afirma que "é preciso ir mais longe".

Entre aquilo que já se sabe, não há mudanças relevantes, como indicam João Silvestre, Elisabete Miranda e David Dinis. O grave problema demográfico de Portugal é combatido com um incentivo total de 900 euros para quem tiver um segundo filho, um aumento em relação àquilo que está em vigor, mas um curto paliativo de eficácia duvidosa para arrefecer um foco de alta tensão financeira sobre a Saúde e a Segurança Social. E estão previstas outras medidas pontuais, como um prémio fiscal para as empresas que reinvistam os lucros, uma eventual redução do IRC para as pequenas e médias empresas e um desagravamento do IRS para o primeiro emprego, enquanto a actualização salarial de 0,3% para a poderosa corporação da Função Pública promete aquecer as ruas e paralisar os serviços.

Em suma, perda de receitas e aumentos de despesa que terão de ser compensados. Muito provavelmente através do abuso arbitrário das cativações, de restrições no investimento público e da subida da carga fiscal em áreas que facilmente poderão ser justificadas sob alguma capa melíflua e politicamente correcta como a da "fiscalidade verde". Serão pequenos ajustamentos no quadro de uma consolidação orçamental que tem dependido, em boa parte, da poupança nos encargos da dívida e dos lucros do Banco de Portugal, uma opção que ameaça transformar as glórias de hoje nos desastres de amanhã.

António Costa e Mário Centeno poderão ter na manga alguma surpresa que vá para além das perspectivas de curto prazo. Mas a prudência aconselha a que não se espere da proposta de Orçamento para 2020 que hoje entra na Assembleia a peça que faltava numa visão para o país capaz de ajudar a melhorar a produtividade e a competitividade, a arrebitar o crescimento insuficiente que caracterizou as duas décadas mais recentes, a reformar um Estado pesado e desorganizado, excepto quando se trata de cobrar, ou a incentivar a melhoria da magra taxa de poupança, uma debilidade que tem como contrapartida níveis perigosos de endividamento. Ainda assim, deve louvar-se a sinceridade do primeiro-ministro por já ter avisado que o ano que vem será de "continuidade". Com algum optimismo irritante, a expressão é capaz de gerar um nível de entusiasmo semelhante àquele que um peru sentirá nas vésperas do Natal.

Outras notícias

António Costa e Mário Centeno protagonizaram uma situação bizarra no mais recente Conselho Europeu, realizado no final da semana passada. Em causa esteve o orçamento da zona euro, que suscita divergências de opinião entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças na matéria que diz respeito à distribuição de verbas pelos diversos países integrantes do espaço da moeda única, tema em que Centeno conseguiu alcançar uma solução consensual. Consensual? António Costa não guardou o seu ponto de vista no bolso, deu origem a uma troca de argumentos com o "seu" ministro e gerou perplexidade entre os participantes no encontro. O primeiro-ministro garantiu não haver discordâncias, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa veio colocar água na fervura dos desentendimentos fora de portas entre governantes. Costa defendeu a posição portuguesa e Centeno foi porta-voz do Eurogrupo. Eis a tese pacificadora do Presidente da República.

No PSD, prossegue a batalha da campanha eleitoral para a liderança nacional do partido entre Rui Rio, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz mas, nos Açores, o problema está resolvido. José Manuel Bolieiro, vice-presidente na direcção de Rio, venceu a corrida para a presidência regional laranja com uma votação esmagadora: 98,5%. O facto de ser candidato único deve ter ajudado.

No CDS, há mais um candidato à sucessão de Assunção Cristas. Francisco Rodrigues dos Santos, líder da Juventude Popular, decidiu avançar e o anúncio oficial está agendado para a próxima terça-feira, no Porto. É o quinto militante do partido a entrar na luta pela liderança, depois de Filipe Lobo d'Ávila, João Almeida, Abel Matos Santos e Carlos Meira terem assumido idêntica intenção.

Os resultados alcançados pelo partido nas eleições legislativas de Outubro não foram brilhantes, mas o Aliança ainda mexe. Pedro Santana Lopes propôs neste domingo a realização de um congresso extraordinário. O objectivo é o de “estruturar e clarificar o rumo” do partido e preparar os próximos actos eleitorais.

Uma boa notícia para quem viaja pelos países que integram a União Europeia. A partir deste domingo, os pagamentos e levantamentos de dinheiro em euros passaram a custar o mesmo em todo o espaço da UE. A novidade resulta da aplicação do regulamento adoptado em Março de 2019, destinado a alinhar os preços cobrados nos países que estão fora da moeda única com aqueles que são praticados nos Estados-membros da moeda única.
Matéria não desprezível para um país que é forte consumidor de peixe. Os ministros das Pescas da União Europeia dão início, nesta segunda-feira, à discussão sobre as possibilidades de pesca para 2020. À partida, as perspectivas para Portugal implicam algumas restrições, com reduções nas quotas do carapau, pescada e linguado.

As expectativas eram elevadas, mas os frutos foram escassos. O prolongamento por mais dois dias, em relação ao calendário original, dos trabalhos da Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, não foi suficiente para se alcançar um acordo substancial. O controverso mercado de carbono fez patinar o conclave. António Guterres não escondeu a desilusão: “A comunidade internacional perdeu uma oportunidade importante para mostrar maior ambição em matéria de mitigação, adaptação e financiamento para enfrentar a crise climática", escreveu o secretário-geral da ONU no Twitter. A activista Greta Thunberg partilhou uma frustração semelhante: “Parece que a COP25 em Madrid está a desmoronar-se neste momento. A ciência é clara, mas a ciência está a ser ignorada". As organizações ambientalistas Oikos e Zero consideraram “pouco positivo” o resultado da cimeira do clima e responsabilizaram os Estados Unidos, a Austrália e o Brasil pelo fracasso.

Boris Johnson obteve uma vitória esmagadora nas eleições britânicas de 12 de Dezembro e parece não querer perder tempo quanto ao cumprimento do desígnio que foi decisivo para o seu sucesso eleitoral e a derrocada dos trabalhistas liderados pelo ambíguo Jeremy Corbyn. Instalado, com conforto, numa maioria parlamentar, o líder conservador aposta agora em obter, na Câmara dos Comuns, uma votação favorável ao acordo de saída do Reino Unido da União Europeia antes das celebrações de Natal. Esta segunda-feira, Johnson vai reunir-se com os deputados do partido que lidera. O objectivo é o de cumprir o calendário de 31 de Janeiro para a concretização do processo atribulado em que o Brexit se transformou desde o referendo de 2016. 

Entretanto, Corbyn pediu desculpa pelo desaire eleitoral, que classificou como um "golpe duro".
"Os Estados Unidos têm um objectivo, não um prazo". A declaração é de Stephen Biegun, representante especial norte-americano para a Coreia do Norte, e resume a resposta de Washington ao prazo, que decorre até ao final do ano, que o regime de Pyongyang fixou para que os dois países cheguem a um acordo sobre desnuclearização e levantamento de sanções. A Coreia do Norte ameaça oferecer um presente de Natal aos Estados Unidos, eufemismo que significa a realização de novos testes com mísseis.

A guerra comercial entre China e Estados Unidos conheceu mais um desenvolvimento. Desta vez, no caminho da redução da agressividade. Pequim decidiu suspender a aplicação de tarifas adicionais sobre produtos norte-americanos que era suposto terem entrado em vigor neste domingo. Um acordo parcial não remove outras barreiras erguidas nos dois últimos anos no comércio entre os dois países. Para já, existe um entendimento sobre transferência de tecnologia, propriedade intelectual, expansão comercial e estabelecimento de mecanismos de resolução de disputas.

Actriz, realizadora e cantora, musa de Jean-Luc Godard, morreu no sábado, em Paris, Anna Karina ou Hanna Karin Barke Bayer, o seu verdadeiro nome. Ao Expresso, na ultima entrevista que deu, revelou: “Godard partia para comprar cigarros e voltava três semanas depois. Coisas duras para uma rapariga”.

Se vive no Norte ou no Centro do país, previna-se. "Precipitação, neve, vento forte e agitação marítima" são ameaças que fazem parte do aviso à população emitido pela Protecção Civil. Tenha, também, cuidado com a cabeça. "A queda de ramos ou árvores em virtude de vento mais forte é outro risco a considerar", alertou aquela autoridade. A próxima quarta-feira será o dia mais tormentoso.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Geringuenza! Geringoncia?...



Demorou tempo – foram precisos 46 meses - para que Espanha alcançasse um acordo político com perspetivas de estabilidade para governar o país. O secretário-geral do Partido Socialista e Operário Espanhol (PSOE), Pedro Sánchez, acabou por ceder e vai repartir o poder com a extrema-esquerda do Unidas Podemos. A junção destas duas forças políticas não é suficiente, faltam ainda 21 deputados para uma maioria absoluta, que terão de vir de outros partidos de esquerda ou dos partidos regionais. Mas estamos cada vez mais perto de ter finalmente um governo com perspetivas de estabilidade no país vizinho. Pode conferir aqui os 10 pontos do pré-acordo assinado pelos dois partidos.

Uma Espanha estável e tranquila é algo que interessa muito a Portugal por todos os motivos – económicos, políticos, sociais. E interessa também, muito, à Europa. As tensões independentistas na Catalunha são uma ferida aberta que parece difícil de fechar. E Espanha vê emergir forças extremistas de direita que conquistam um espaço eleitoral significativo: o VOX tornou-se o terceiro partido mais votado com 52 deputados e a governação PSOE Unidas Podemos propõe-se não só tentar pacificar a Catalunha como também travar o avanço do VOX.

As primeiras reações da Bolsa de Madrid não foram positivas  o índice Ibex 35 perdeu 0,87% no final da sessão. Mas ainda assim a perspetiva de alguma estabilidade não deixa de ser uma boa notícia.

Esta espécie de geringonça à espanhola – uma geringuenza, uma geringoncia? – acontece quando em Portugal ainda se caminha sobre os escombros da geringonça original, a portuguesa. E por estes dias temos uma intensa atividade política – parte da qual permitirá perceber o que sobra dos entendimentos do passado.

Ontem foi dia de encontro entre os partidos de esquerda para uma aproximação de posições que permita a aprovação do Orçamento do próximo ano, numa ronda que se estende pelo dia de hoje e amanhã. O Governo esteve reunido com o PAN, os Verdes e o Bloco de Esquerda. Hoje será a vez de se reunir com o PCP e na quinta-feira com o Livre. O líder do PCP tratou de retirar a importância ao encontro. Jerónimo de Sousa disse que o PCP não vai para “negociar”.

Num Parlamento mais diversificado, onde acabam de entrar três novos partidos, um dos temas que dominaram ontem a atualidade foi o impedimento de os deputados únicos do Chega, Iniciativa Liberal e Livre intervirem no debate de hoje com o primeiro-ministro. Houve um recuo conjugado de PS, Bloco de Esquerda e PCP que viabilizaram a aplicação da mesma regra que foi aplicada na anterior legislatura ao PAN: e por isso aqueles três partidos terão um minuto e meio para falar. Haverá depois alterações formais ao regimento que consagrarão definitivamente as novas regras para estes partidos.

Neste que será o primeiro debate quinzenal desta legislatura, o primeiro-ministro trará para cima da mesa o tema das “políticas de rendimento”. Mas antes decorre a reunião da concertação social, em que o Governo pretende fechar o valor do salário mínimo de 2020. Um aumento dos 600 para os 635 euros será a aposta do Governo, mas não é provável que patrões e sindicatos deem o seu aval: os sindicatos não veem com bons olhos a concessão de benesses aos patrões e o Governo deverá deixar para depois a negociação para a valorização dos salários em geral.

Eutanásia O PAN já entregou o seu projeto de lei para legalizar a morte assistida. O documento não é muito diferente do que foi entregue pelo Bloco de Esquerda logo no primeiro dia da legislatura. Fica a faltar a a posição do PS.


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Governo de António Costa e Outros Assuntos da Actualidade

Bom dia, hoje é quarta-feira, 16 de Outubro, já temos o elenco do novo governo, o XXII da democracia. Enquanto isso, lá por fora, as negociações no Brexit têm novidades. Esta é a sua newsletter matinal. Venha daí comigo.

Ao fim de quatro anos a governar o país, António Costa engordou. Pelo menos, engordou o governo. O novo elenco de ministros que vai tomar posse algures na próxima semana vai ser tão só o maior desde 1976. Sim, desde há 43 anos que não havia um governo tão grande. São 19 ministros, mais o primeiro-ministro (e ainda os secretários de Estado Adjunto e da Presidência do Conselho de Ministros, que têm ambos assento nas reuniões semanais do Conselho de Ministros).

O anterior governo de Costa contava com 17 ministros. Acima desse só o de Santana Lopes, em 2004, com 18.

Mas um governo é pior ou melhor por ter mais ou menos ministros? Não, de todo. Claro que fazer o maior governo dos últimos 43 anos não é propriamente um sinal de grande esforço de contenção ou exemplo de um Estado mais enxuto, mas não é por um executivo ser maior ou mais pequeno que vai governar os destinos do país de forma mais ajuizada.

De qualquer forma, este parece-me um sinal menos positivo à partida.

No campo oposto, claramente positivo é o facto do novo leque de ministros ser na história da nossa já não tão jovem democracia aquele que mais mulheres tem. São oito ao todo. Bravo! Estamos cada vez mais longe do tempo do I Governo, em que a política era um exclusivo de senhores engravatados. Oito mulher, onze homens.


Ontem, eram 18.28 quando António Costa chegava a Belém para a audiência semanal com o Presidente da República, antecipada de forma a que o primeiro-ministro vá para o Conselho Europeu que tem de decidir a solução para o Brexit.

Por essa altura, já nas redacções se sabia que na pasta que levava na mão António Costa tinha o novo Governo. Às 19.00 já a audiência terminara e eram conhecidos todos os nomes.

Veja a lista completa de ministros do XXII Governo Constitucional:

Primeiro-Ministro: António Costa
Ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital: Pedro Siza Vieira
Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros: Augusto Santos Silva
Ministra de Estado e da Presidência: Mariana Vieira da Silva
Ministro de Estado e das Finanças: Mário Centeno
Ministro da Defesa Nacional: João Gomes Cravinho
Ministro da Administração Interna: Eduardo Cabrita
Ministra da Justiça: Francisca Van Dunen
Ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública: Alexandra Leitão
Ministro do Planeamento: Nelson Souza
Ministra da Cultura: Graça Fonseca
Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior: Manuel Heitor
Ministro da Educação: Tiago Brandão Rodrigues
Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social: Ana Mendes Godinho
Ministra da Saúde: Marta Temido
Ministro do Ambiente e da Ação Climática: João Pedro Matos Fernandes
Ministro das Infraestruturas e da Habitação: Pedro Nuno Santos
Ministra da Coesão Territorial: Ana Abrunhosa
Ministra da Agricultura: Maria do Céu Albuquerque
Ministro do Mar: Ricardo Serrão Santos
Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares: Duarte Cordeiro
Secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro: Tiago Antunes
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros: André Moz Caldas


Já os decorou a todos? Vá, pode dar uma segunda leitura. E se ainda assim não fixar o nome do ministro do Planeamento, não se atormente. Ele já faz parte do governo há um ano mas ainda ninguém deu por isso.

Governo conta com cinco novos ministros, dois deles em estreia total.
O primeiro nome que é uma estreia total em termos de governo é o de Ana Abrunhosa, que até aqui liderava a CCDR do centro e teve como missão a recuperação e reconstrução de muitas das zonas mais afectadas pelos incêndios florestais dos últimos anos. E para a nova ministra, uma nova pasta, a da Coesão Territorial.

A segunda estreia absoluta é Ricardo Serrão Santos, ex-eurodeputado, e que vai para a pasta do Mar, até agora nas mãos de Ana Paula Vitorino.


Já houve primeiros-ministros que tinham como política evitar a promoção de secretários de Estado a ministro, para evitar o fomentar de invejas e jogos menos claros dentro dos próprios governos. Costa manifestamente não é adepto dessa linha.

Neste novo Governo, promove três secretários de Estado a ministro. E nos três casos, todos de mulheres, com mudança de Ministério.
Alexandra Leitão, a enérgica secretária de Estado da Educação, que não raras vezes roubou protagonismo ao seu ministro, agora vai tutelar a Administração Pública. Como aqui se afirma, passa de um negociador duro, mário Nogueira, para outro não mais meigo, Mário Centeno.

O segundo caso de promoção é o de Ana Mendes Godinho. Tal como Leitão, foi cabeça de lista distrital pelo PS nas últimas legislativas. Tal como Leitão, tinha feito um trabalho muitas vezes elogiado, na pasta do Turismo. Tal como Leitão, fica com uma pasta pesada, sensível e delicada. Vai caber-lhe o Trabalho e Segurança Social, pasta deixada vaga por Vieira da Silva, que já vem desde os governos de Guterres (e que politicamente é provavelmente a maior baixa deste novo elenco).

Na pasta da Agricultura, o histórico Capoulas Santos, cujo nome quase se confunde com o Ministério quando é o PS que está no governo, é substituído por uma mulher, Maria do Céu Albuquerque, até aqui na secretaria de Estado do Desenvolvimento Regional - apenas a segunda mulher no cargo, depois de Assunção Cristas. Albuquerque chegou ao executivo rosa já neste ano de 2019, tendo antes sido durante nove anos autarca em Abrantes.

Outras notas ainda para a hierarquia do Governo, em que Siza Vieira, com a pasta da Economia, fica como número dois, e em que há quatro ministros de Estado.
Nota para a saída de Vieira da Silva, que deixa indiscutivelmente o Governo politicamente mais fraco.
Nota para a preponderância crescente do PS no executivo.
Nota para o facto de dois dos ministros mais contestados terem sido mantidos no lugar por Costa.
E nota para o facto de os Assuntos Parlamentares não terem passado a Ministério, apesar da necessidade de reforço negocial no Parlamento de um governo sem maioria.

Aqui pode ler a análise feita no site do Expresso ao novo elenco, pela pena do David Dinis.

Nas primeiras reacções aos nomes escolhidos por António Costa, já era expectável que as críticas aos ministros da Educação e da Saúde fossem das mais intensas, ou não fossem Tiago Brandão Rodrigues e Marta Temido dos governantes mais criticados do governo cessante. As críticas ontem vieram da Fenprof e da Ordem dos Médicos, nomeadamente.
Aqui fica um resumo das principais reacções surgidas aos nomes do governo.

Os próximos passos formais são: hoje são apurados os resultados dos votos da emigração e conhecidos os quatro deputados que faltam e depois a nova Assembleia da República tem de tomar posse, dando início formal a uma nova legislatura. A seguir, toma posse o primeiro-ministros e os seus ministros. Dois ou três dias depois será a vez dos secretários de Estado. E ainda uns dias depois decorre o debate do Programa de Governo, no Parlamento, findo o qual o executivo entra na plenitude das suas funções (a menos que o governo caísse com a aprovação de uma moção de rejeição).


OUTRAS NOTÍCIAS
Cá dentro,

Foram ontem conhecidas as previsões do Fundo Monetário Internacional para os próximos anos. E todos sabemos como nesta altura convém olhar para estes números, perante as nuvens de abrandamento do crescimento da economia mundial que pairam. Estas nuvens confirmam-se e também para Portugal há alguns sinais de preocupação.

O Governo já enviou para Bruxelas o esboço da proposta de Orçamento do Estado para o próximo ano.

Tensa, agitada e expectante continua a vida interna do PSD, depois da derrota nas eleições de dia 6. Rui Rio ainda não disse ao que vai e o que pretende fazer e hoje reúne a sua Comissão Política Nacional. Aqui, o editor de Política do Expresso escreve sobre o estado do partido laranja.

A procurador do chamado caso Alcochete foi castigada com uma multa de meio salário. Leia aqui porquê.

A factura da luz vai descer para muitos portugueses.

Lá fora,

Nas últimas horas, e com o tic-tac do relógio a tornar-se cada vez mais ruidoso, parecem ter surgido novidades nas intensas negociações entre a União Europeia e o governo de Boris Johnson quanto à possibilidade de ainda ser assinado um acordo entre as duas partes que evite uma saída desordenada do Reino Unido da União Europeia já no fim deste mês. Se um Brexit é péssimo, um No Deal Brexit é um cenário terrível. A luz ao fundo do túnel do que poderá ser um acordo pode passar pela colocação de uma fronteira irlandesa no mar, e não na divisória entre as duas irlandas. Algo que em tempos o governo de Theresa May rejeitou, e algo que os unionistas podem ter dificuldade em engolir. Mas com a pressão a aumentar…

Esta madrugada decorreu um (considerado) decisivo debate televisivo entre os candidatos Democratas às primárias na corrida à Casa Branca. Nota forte para o facto de Elizabeth Warren surgir agora numa posição de maior destaque, e lovo alvo de mais ataques, por oposição a Joe Biden, cuja estrelinha parece estar a perder energia.

Donald Trump veio sugerir que os mexicanos são uma ameaça terroristas maior que os islamistas radicais do Daesh.

Depois de na semana passada Donald Trump ter anunciado o fim das missões militares norte-americanas na zona leste da Turquia, abrindo caminho à intervenção militar das forças de Erdogan sobre os curdos no nordeste da Síria, e tornando a zona num caldeirão ainda mais explosivo, agora os EUA fazem saber que o vice-presidente Mike Pence vai à Turquia para tentar negociar um cessar-fogo para o conflito.

Ainda sobre este tema, vale a pena ler o texto da New Yorker, cujo título diz praticamente tudo: a política síria de Trump é um desastre

O filho de Joe Biden já veio admitir que errou ao aceitar cargos numa empresa ucraniana (os Biden estão sob fogo no caso que deu origem ao pedido de destituição de… Trump)

Esta terça-feira os protestos populares na Catalunha, depois do Supremo Tribunal espanhol ter condenado doze dirigentes regionais independentistas a pesadas penas de prisão, não abrandaram em termos de adesão e força, embora tenham sido menos violentos que os registados na véspera.
Com a Espanha, além disso, em campanha eleitoral, o líder da oposição veio pedir a Sanchez que ative a lei de segurança nacional.
Em Portugal também se protestou contra as penas de prisão aos líderes catalães.

Aqui deixo-lhe ainda um texto sobre Harold Bloom, o maior crítico literário do planeta e um dos grandes intelectuais, que acaba de morrer.

Afinal, parece que a queda de um prédio em Fortaleza, Brasil, não terá feito quaisquer vítimas mortais, ao contrário do inicialmente noticiado.


DESPORTO

Lembra-se há uns dias da história do atleta guineense que nos Mundiais de Atletismo foi ajudar um colega que se lesionou a terminar a prova? Pois, ele vive em Portugal e nós fomos falar com ele e nesta reportagem contamos a sua história.

Cristiano Ronaldo já chegou aos 700 golos e você tem de ver este vídeo que preparo.

Destaque para o surf, desporto em que os olhos do planeta estão nos próximos dias centrados em Peniche, que acolhe a prova masculina e feminina do circuito mundial. Nos homens, Portugal tem três nomes em prova: Frederico Morais, Vasco Ribeiro e Miguel Blanco.

O favoritismo nos homens vai para os brasileiros, que têm dominado a prova nos últimos anos. Nas senhoras, Carissa Moore é a mais forte candidata à vitória no mundial, que será a sua quarta caso aconteça.
No futebol, na madrugada de quarta para quinta-feira Jorge Jesus leva o seu Flamengo para mais uma jornada do Brasileirão. A propósito de Jesus, não perca a Revista do Expresso do próximo sábado. E mais não digo

As duas coreias tiveram um histórico embate entre equipas nacionais de futebol. Mas o encontro foi uma espécie de partida-fantasma, sem ninguém a assistir, a relatar ou a filmar ou a fotografar.

Depois do seu feito no último fim de semana, ao tornar-se o primeiro a baixar das duas horas numa maratona, Eliud Kipchoge já veio falar e defender-se de algumas das críticas surgidas. “Sou um ser humano, não um automóvel”.