quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Um milhão de euros por hora

 No próximo ano, o país poderá receber €9.117 milhões de fundos europeus entre o Portugal 2020, o Portugal 2030 e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).


O valor consta da proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2022 que arrisca não ser aprovada na Assembleia da República.

Em causa está mais do dobro do montante que o país teve de aplicar em 2019, ano das últimas eleições legislativas.

Tanto dinheiro dá uma média de €25 milhões por dia. Acima de um milhão de euros por hora para investir durante 2022 na recuperação do país.


Missão difícil, mas não impossível

Ora se este dinheiro é essencial para Portugal sair da crise, terá de ser possível mobilizá-lo mesmo nos cenários mais dramáticos de crise política. Professores de direito e de finanças públicas já anteciparam várias soluções aqui.

Marcelo Rebelo de Sousa até pode dissolver o Parlamento, mas deixar António Costa a gerir os fundos europeus.

Esta segunda-feira, o seu secretário de Estado Adjunto, Tiago Antunes, admitiu ao Polígrafo SIC que o primeiro-ministro não se demitirá se o OE chumbar: “Um cenário de demissão poderia causar limitações relevantes à gestão, até de financiamentos e de aplicação de fundos. Não queremos criar esse tipo de riscos e de problemas em cima dos problemas que, aparentemente, já estão colocados com a eventual não viabilização do OE”.

Afinal, não é só o dinheiro da bazuca europeia que está em risco. Uma auditoria divulgada ontem pelo Tribunal de Contas alerta o governo para a necessidade de “multiplicar exponencialmente a capacidade de absorção” dos fundos europeus. Esta chama a atenção para os estrangulamentos ao nível da falta de pessoal ou dos sistemas de informação do Portugal 2020.

A crise política também não poderá interromper as negociações dos €24 mil milhões de fundos europeus do próximo quadro comunitário Portugal 2030. “O Governo tem de continuar a trabalhar e as negociações com a Comissão Europeia têm de continuar. Ponto final”, disse a ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa.

A intenção do ministro do planeamento, Nelson de Souza, era submeter a proposta a Bruxelas ainda esta semana e iniciar a discussão pública do Portugal 2030 em novembro.

PRR domina OE 2022

Segundo o Conselho das Finanças Públicas, as despesas previstas no OE 2022 ao abrigo do PRR ascendem a €3,2 mil milhões, com destaque para as áreas da saúde, educação e ambiente.

Em causa estão mais de dois terços do impulso orçamental proposto pelo governo para o próximo ano. “Um estímulo direto superior a 1% do PIB que não se reflete no agravamento do défice” pois estas transferências comunitárias permitem “financiar despesa de forma alternativa aos impostos ou ao crescimento da dívida”.

Mas os sucessivos orçamentos de António Costa têm sido marcados pelo investimento público que acaba por não sair da gaveta. Daí que a entidade liderada por Nazaré Costa Cabral avise que este impulso se baseia “na importante premissa de que os investimentos previstos são efetivamente realizados”.

Pelas contas do Cirilo João Vieira, entre o proposto à Assembleia da República e o concretizado no terreno, os investimentos públicos que ficaram por executar desde 2016 já ascendem a quase €4 mil milhões. E o impulso agora prometido pelo OE 2022 desilude a UTAO - Unidade Técnica de Apoio Orçamental da Assembleia da República.

Este gráfico mostra como governos anteriores conseguiram investir bem mais do que os 3,2% do PIB agora prometidos no OE2022. Sem o PRR. E muitos são os parceiros europeus a investir o dobro lá fora...

Onde apostar os fundos?

É no portal Recuperar Portugal que pode acompanhar os concursos já abertos para todos estes investimentos patrocinados pela ‘bazuca’ europeia. Tanto públicos como privados.

Por exemplo, a nova ponte do Douro já tem projetistas. As famílias continuam a concorrer aos “vales eficiência” para fazerem obras em casa. Nos Açores, até já estalou a polémica com o governo regional.

Certo é que as muitas empresas que concorreram em consórcio com faculdades e outras entidades do sistema científico e tecnológico nacional às chamadas “agendas mobilizadoras para a inovação empresarial” aguardam agora pelos resultados do concurso prometidos para o final de novembro.

Pelas contas da Deloitte, cada um destes grandes consórcios propõe-se a investir uma média de €215 milhões no desenvolvimento de produtos mais inovadores para exportação até 2025.

O dinheiro do PRR não dará para todos. Mas só esta ligação mais estreita entre o sistema científico e tecnológico português e as ‘empresas fronteira’ nacionais e globais poderá acelerar a difusão da inovação e a convergência da produtividade da economia portuguesa para os patamares dos países mais desenvolvidos. Esta é precisamente a proposta do novo estudo “Do made in ao created in: um novo paradigma para a economia portuguesa”.

Este é mais um estudo que pode ajudar o país a fazer melhor com os fundos europeus. Uma das suas conclusões é o claro subfinanciamento do ensino superior nacional face a faculdades de topo a nível internacional. Por exemplo, o Instituto Superior Técnico tem 30 vezes menos orçamento por estudante do que o MIT. E o financiamento público dado pelo Governo português para todo o sistema compara-se ao Imperial College.

Neste contexto, vale a pena ler o diagnóstico saído dos Encontros de Cascais sobre o destino de tantos fundos europeus. Um tema que poderá continuar a acompanhar no Fórum das Políticas Públicas 2021, agendado para a próxima sexta-feira, dia 29 de outubro.

Por hoje é tudo.

Bons fundos!

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Orçamento ou caos?

Patrões e sindicatos recusaram-se a fechar acordo com o Governo sobre o pacote de medidas batizado como agenda para o trabalho digno. Uns consideram que se vai demasiado longe, outros defendem que se devia ir mais além. Sem consensos capazes de transformar a concertação social em algo mais do que um eufemismo, o Executivo decidiu avançar. Esta quinta-feira, em conselho de ministros, deverá aprovar as 70 medidas que, em sucessivas reuniões com representantes dos empresários e dos trabalhadores, deixaram um rasto de divergências insuperáveis.


Governo tem pressa porque está sob pressão e tem necessidade de a aliviar. Com a votação do Orçamento do Estado para 2022 agendada para 27 de Outubro, precisa de derrubar a relutância dos parceiros que, à esquerda, lhe têm permitido manter-se à tona. É desta forma que um dossiê que pouco tem a ver com o documento que estabelece o que o Estado vai cobrar e aquilo que vai gastar no próximo ano foi arrastado, irremediavelmente, para o jogo negocial que tenta salvar o Orçamento de um chumbo e evitar a consequente crise política.

Até à hora da verdade, as aparências podem ser enganadoras. Muito daquilo a que se assiste por estes dias nas relações tensas entre o Governo, o PCP e o Bloco de Esquerda não é diferente da coreografia de periodicidade anual em que cada membro da geringonça tenta ganhar alguma coisa sem perder a face perante os seus eleitores. Se a possibilidade de uma crise política existe, com a eventual queda do Governo e a convocação de eleições legislativas antecipadas, não se percebe quem poderá ter alguma coisa a ganhar, pelo menos com relevância suficiente para compensar o risco de arcar com o ónus.

PCP e Bloco lambem as feridas da má prestação nas eleições autárquicas. Comunistas em queda e um BE insignificante no poder local não terão grande interesse em sujeitar-se, tão cedo, a um novo escrutínio, ainda para mais carregando sobre os ombros a potencial responsabilidade por um vendaval político, expressão adequada a um cenário em que, sem maiorias absolutas, pontes desfeitas entre PS e os partidos à esquerda e uma direita fragmentada, a dificuldade de construir soluções estáveis e duradouras abriria as portas ao pesadelo da ingovernabilidade.

É provável que o PS não exclua a possibilidade de seguir uma estratégia de vitimização destinada a colher votos. Mas o impasse em que a viabilização do Orçamento do Estado está mergulhado é, em primeiro lugar, responsabilidade de António Costa e do desdém com que fechou a porta a qualquer entendimento com o PSD, colocando-se nas mãos de parceiros que não fazem cerimónia em aceitar e usar o poder desproporcionado que lhes foi concedido pelo líder do Governo. A hipótese, alimentada por diversas sondagens, de os socialistas irem a eleições e arrecadarem uma maioria absoluta, foi má conselheira. Semeou arrogância e cultivou a miopia política.

Apertado, António Costa não tem para onde se virar. Ao utilizar declarações do Presidente da República para coagir o PCP e o Bloco, não deixa dúvidas sobre a posição periclitante em que se enredou e sobre o estado de degradação a que chegou o debate sobre as políticas públicas e a aplicação dos recursos disponíveis para as concretizar. O aroma é de fim de ciclo. Mas a probabilidade de a alternativa vir a ser algo semelhante ao caos é elevada. Marcelo Rebelo de Sousa sabe-o e preferia trilhar outra via. O Orçamento é mau? É. Deve ser aprovado? Deve.


OUTRAS NOTÍCIAS

Tânia Loureiro Gomes deu mais três dias a Maria de Jesus Rendeiro, mulher do ex-banqueiro João Rendeiro, que se encontra em parte incerta, para devolver 15 obras que fazem parte da colecção de arte arrestada pelo tribunal. O novo prazo fixado pela juíza expira no próximo sábado.

Os sindicatos da Função Pública reuniram-se ontem, quarta-feira, com a ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, mas esbarram com a intransigência do Governo. Os aumentos salariais no sector serão de 0,9% em 2022. Uma greve, convocada por estruturas ligadas à UGT e à CGTP, está a ser preparada para 12 de Novembro.

Rui Rio apresenta esta sexta-feira, no Porto, a recandidatura à liderança do PSD. A decisão de avançar é justificada por uma questão de “convicções” e por colocar o país “em primeiro lugar”. “Injustiça” e “deslealdade” são palavras que os apoiantes do actual presidente social-democrata utilizam para caracterizar o comportamento de Paulo Rangel, que está na corrida contra Rio.

Marcelo Rebelo de Sousa promulgou o diploma do Governo que se destina a limitar os preços dos combustíveis, mas deixou críticas. As medidas são “paliativas”, considera o Presidente da RepúblicaAntónio Costa prometeu anunciar, até ao final desta semana, novas mudanças com o objectivo de minorar os impactos da actual crise. Esta quinta-feira, em Bruxelas, o primeiro-ministro vai propor, no Conselho Europeu, a possibilidade de se estudar a aquisição conjunta de combustíveis pelos 27. “Provou bem nas vacinas”, afirmou António Costa.

O ambiente na cimeira de líderes europeus pode vir a aquecer. O assunto que ameaça fazer subir a temperatura é a avaliação do estado de Direito na Polónia, tema que Varsóvia quis levar a debate. Susana Frexes antecipa o que está na agenda de discussões, num Conselho Europeu que deverá ser o último em que a chanceler alemã Angela Merkel participa.

“O modelo de leilão que a ANACOM inventou é, obviamente, o pior modelo de leilão possível”. Foi desta forma que o líder do Governo se manifestou, no Parlamento, sobre o leilão da quinta geração de comunicações móveis. O processo arrasta-se há quase nove meses e António Costa foi mais longe: quem defendeu que “era preciso limitar os poderes dos governos para dar poderes às entidades reguladoras, deve refletir bem sobre este exemplo”.

Rui Moreira tomou posse, esta quarta-feira, para um terceiro e último mandato como presidente da Câmara Municipal do PortoPrometeu terminar os projectos que a pandemia atrasou, respeitar os compromissos eleitorais e escutar os vereadores da oposição.

Uma nova variante do coronavírus que desencadeia a covid-19 está a deixar em alerta as autoridades do Reino Unido. É conhecida como AY. 4.2, será uma sub-estirpe da Delta, mas mais contagiosa. A imprensa britânica estima que 6% dos novos casos de infecção no país já tenham origem nesta nova variante. Nos Estados Unidos, foram autorizadas as doses de reforço das vacinas da Moderna e da Johnson & Johnson.

Fadiga, perda de memória e de olfacto. A ciência ainda tem de percorrer um longo caminho para compreender as sequelas da covid-19 e os casos em que a doença se prolonga e provoca alterações cognitivas. "Nos casos de covid grave que estiveram hospitalizados nos cuidados intensivos já se sabe que as alterações cognitivas poderão rondar entre 30 a 60% dos doentes", afirma Sara Cavaco, diretora da Unidade de Neuropsicologia do Centro Hospitalar Universitário do Porto.

Há 21 anos, a ETA matou a tiro o marido de Maixabel Lasa, que na época era governador civil da província basca de Guipúscoa. Foi diretora do Gabinete de Atenção às Vítimas do Terrorismo do Governo regional do País Basco e incentivou encontros redentores entre vítimas e agressores. Em entrevista ao Expresso, afirma: “São os presos arrependidos quem mais deslegitima a história da ETA”.

UNICEF calcula que um em cada três estudantes com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos seja vítima de bullying e que este é o tipo de violência mais comum nas escolas. Rapazes e raparigas estão igualmente expostos. Esta quarta-feira assinalou-se o dia mundial de combate a esta forma de agressão.

Benfica perdeu esta quarta-feira, por 4-0, o jogo contra o Bayern de Munique a contar para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Numa crónica intitulada “Sané e a arte do dilúvio bávaro”, Hugo Tavares da Silva escreve que o Bayern é, ​​”porventura, a melhor equipa que existe e, agravando a situação, com o maior apetite do mundo”.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Haja paciência

Em vésperas de receber os partidos, para falar com eles sobre o Orçamento do Estado para 2022, o Presidente da República já foi adiantando serviço: na quarta-feira à tarde, em declarações à margem de uma visita à nova sede da Ajuda de Berço, Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de mostrar que não há mão que embale o país e o salve de eleições antecipadas caso o Orçamento não seja aprovado. Governar em duodécimos e sem fundos europeus pura e simplesmente não é possível, avisou o Presidente, como quem diz: se os partidos querem mesmo "brincar" com o OE e arriscar o seu chumbo, preparem-se para pagar a fatura.

Palavras que vêm de um Presidente que repetidas vezes (a última das quais na semana passada, numa entrevista a Miguel Sousa Tavares) tem afirmado que gostaria de chegar ao termo do segundo mandato sem utilizar o maior dos seus poderes: o da demissão do Governo e a dissolução  do Parlamento. Mas que agora deixa claro que não hesitará em fazê-lo se a situação política a isso o conduzir. E o chumbo do Orçamento, neste contexto político (apenas no início do fim da crise pandémica) e sem que se vislumbre uma alternativa de Governo sólida dentro da atual composição parlamentar, seria um óbvio cenário de "fim de linha".

Com tão estridente alarme, Marcelo veio dar uma nova consistência à hipótese (cíclica, todos os anos por esta altura) de uma crise política. Que não é evidente que aproveite a alguém, mas que o Governo (aparentemente) também não menospreza: anteontem à noite, na SIC Notíciaso secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares não jurou que dia 27 haja Orçamento aprovado na generalidade. "Neste momento ainda não existe um entendimento", admitiu Duarte Cordeiro, embora sublinhando que "o processo negocial é longo" e que o Governo "já sinalizou que está disponível para prosseguir as negociações" nalgumas das matérias que BE e PCP exigem ver tratadas no documento. Também o ministro da Economia, em entrevista à RTP, levou a sério a ameaça: "Não me parece que se trate de um ritual com desfecho certo”afirmou Pedro Siza Vieira, admitindo que “há esforços” que ainda podem ser feitos. Será, talvez, como diz o Presidente, uma questão de "mais ou menos entendimento, mais ou menos paciência”, e o Orçamento acaba, como sempre acabou nestes 47 anos de democracia, por passar?

Rui Rio não quis esperar pela resposta e foi o primeiro a tirar partido do cenário de crise política chancelado pelo Presidente foi Rui Rio. A direção do PSD tinha acabado de tornar pública uma proposta para a realização das diretas para a escolha do próximo presidente do partido a 4 de dezembro e do congresso entre 14 e 16 de janeiro. Nem duas horas depois, o líder social-democrata veio apelar aos conselheiros nacionais que ignorassem a (sua) proposta e adiassem as eleições internas para depois de se saber se há ou não legislativas antecipadas: “Se este Orçamento não passar, como pode acontecer, o PSD é apanhado em plenas diretas e completamente impossibilitado de disputar as eleições legislativas taco a taco”, justificou.

A decisão de Rio terá apanhado boa parte do PSD de surpresa, nomeadamente Paulo Rangel, que já estaria a preparar para os próximos dias o anúncio da sua candidatura à presidência do partido. Ao suster o avanço imediato dos eventuais adversários internos, o líder social-democrata ganha precioso tempo. E se vier mesmo a haver legislativas antecipadas assegura que será ele o candidato a primeiro-ministro. Até pode vir a perder (novamente) para António Costa (embora ele próprio se mostre convicto que os resultados que obteve nas autárquicas auspiciam sucesso nas legislativas) mas se assim for, sairá pela porta grande: "despedido" pelos portugueses nas urnas, ao invés de pelos seus em congresso. 


OUTRAS NOTÍCIAS


Mesmo que a procissão negocial ainda vá no adro, e tudo possa ainda acontecer, convém mantermos o rumo na labiríntica discussão orçamental. O Expresso preparou-lhe um guia prático para se orientar no que, com mais ou menos acertos, aí vem em 2022.

Depois de 87 médicos se terem demitido do Hospital de Setúbal, outros 8 da urgência psiquiátrica do Hospital de São João e das urgências do Hospital de Leiria terem encerrado por falta de pessoal, o Sindicato Independente dos Médicos e a Federação Nacional dos Médicos marcaram greve para os dias 22, 23 e 24 de novembro"Não conseguimos aguentar mais", explicam, deixando "nas mãos do Governo" a responsabilidade de evitar a concretização da paralisação. A ministra da Saúde leva, desta forma, mais peso na mala com que segue para o Porto onde, ontem à noite, inaugura as sessões de apresentação do Orçamento do Estado aos militantes socialistas. 

Os despedimentos coletivos em grandes empresas que dão lucro é um dos engulhos nas negociações entre a esquerda e o Governo. A ajudar (ou não) à conversa, iniciou-se ontem de manhã no Tribunal do Trabalho, em Lisboa, o julgamento da providência cautelar contra despedimentos no Santander Totta Interposta pelos sindicatos dos bancários da UGT Mais Sindicato, o Sindicato dos Bancários do Centro e o Sindicato dos Trabalhadores do Setor Financeiro de Portugal.

Prossegue o folhetim em torno de João Rendeiro. A Judiciária apurou que faltam 15 quadros à coleção de arte apreendida ao antigo banqueiro, agora fugido à justiça, para garantir o pagamento de indemnizações aos lesados do BPP.

Foram divulgados ao final do dia de anteontem os resultados da 2.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior. Apenas 40% dos candidatos foram colocados. Mas ainda há mais de 4000 vagas por ocupar.

Um ataque com arco e flecha fez na quarta-feira “cinco mortos e dois feridos” na cidade norueguesa de Kongsberg, a cerca de 80 quilómetros da capital, Oslo.

A República Popular da China voltou a ameaçar com a anexação de Taiwan. Este "ponto muito quente da política internacional" é o tema da conversa do Expresso da Manhã desta quinta-feira. Quinze minutos para ficarmos a perceber melhor o assunto, numa conversa do jornalista Paulo Baldaia com a professora de Relações Internacionais Raquel Vaz Pinto.


FRASES

Cirilo João Vieira, Jurista e Consultor:


"Tenho para mim que com mais ou menos entendimento, mais ou menos paciência, o Orçamento acaba por passar na Assembleia da República”

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República:

"É um grande orçamento para o país e, portanto, temos que fazer tudo para assegurar que é aprovado"

Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas:


"Se este Orçamento não passar, como pode acontecer, o PSD é apanhado em plenas diretas e completamente impossibilitado de disputar as eleições legislativas taco a taco”

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Implantação da República Portuguesa

 A República portuguesa fez ontem 111 anos e a independência de Portugal, 878 anos — ou, melhor dito, o seu reconhecimento pelo reino de Leão consagrado no Tratado de Zamora, já que o país a conquistara na prática quatro anos antes, proclamada por Afonso Henriques, tendo o selo de aprovação papal chegado 36 anos depois, na bula Manifestis Probatum de Alexandre III. Parabéns aos portugueses, portanto, por uma espécie de aniversário de Portugal, que tem a originalidade de celebrar em feriado a restauração da independência mas não (oficialmente, pelo menos) a conquista da mesma. E parabéns à República, que, quando democrática, é o melhor regime até hoje encontrado.


As celebrações do 5 de Outubro nos Paços do Concelho, de cuja varanda José Relvas proclamou o novo regime em 1910, aconteceram, este ano, poucos dias após eleições em que o povo de Lisboa escolheu mudar de presidente da Câmara. A proximidade de datas sublinha um dos princípios republicanos, aquele que dita que o exercício do poder depende do consentimento dos governados, que o podem outorgar e revogar. A assistir ao último discurso de Fernando Medina nesta cerimónia estava ­— a convite deste último, elogiado por Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos — o novo autarca eleito, Carlos Moedas que pega no testemunho a 18 de outubro.

“É o sentido de continuidade das instituições, de dignificação da política e de convivência democrática”, afirmou o edil cessante, desejando ao senhor que se segue “votos do maior sucesso ao serviço de Lisboa e dos lisboetas”, como conta a Rosa Pedroso Lima na reportagem do Expresso sobre a curta comemoração. (Nota à margem: terá de ser sempre um senhor que se segue? Para quando uma senhora? Entre os 308 presidentes de Câmara eleitos a 26 de setembro só 28 são mulheres, o que é bem espelho da sub-representação das mesmas em cargos dirigentes em Portugal).

Carlos Moedas explicou o prazer com que aceitou o desafio de Medina: “É muito importante estar aqui e muito importante que as transições sejam feitas com toda esta dignidade com que a estamos a fazer entre o presidente da câmara e o presidente eleito. É muito importante para todos nós e para a democracia”. Medina falou de mudança climática e do “imperativo moral” de enfrentá-la. “É nas cidades, onde vive 70% da população mundial, que está em jogo esse futuro. Da mesma forma que nos mobilizamos numa pandemia para proteger a saúde, temos a responsabilidade de nos mobilizarmos para proteger a vida e a saúde perante a mudança climática”, sustentou.

Inquieto também com a ascensão de forças demagógicas, conquanto “muito minoritárias”, que põem em causa “o património fundamental dos direitos humanos, da democracia representativa, da igualdade na cidadania e dignidade fundamental de todos os homens e mulheres” e “conseguem obter na sociedade do espetáculo uma projeção desproporcionada”, o socialista lastima “a atuação de responsáveis políticos que cedem ao que julgam ser o voto fácil” e exige “aos democratas que tenham uma consciência clara do que está em causa e não cedam à chantagem demagógica e ao ar do tempo caindo na armadilha de responder ao populismo com populismo”. Acrescentou que “não há radicalismo nem populismo que sejam bons para a democracia, ambos são o caminho para a desagregação coletiva”.

A festejar a República estava também, é claro, quem hoje preside à mesma. Marcelo Rebelo de Sousa arrancou com “duas palavras prévias: a primeira para evocar com saudade um grande presidente da câmara e um grande Presidente de Portugal, Jorge Sampaio; a segunda para agradecer, em termos nacionais, ao senhor presidente da câmara municipal que está a terminar o seu mandato e para formular, também em termos nacionais, um voto de felicidades ao senhor presidente da câmara que o vai iniciar”. A democracia está viva e o Presidente quer a evocação do 5 de Outubro seja também ela “uma data viva, não uma memória sem futuro ou um ritual sem alma”.

Uma República viva precisa, é claro, de cidadania crítica e de políticos atentos. Veio, pois, o aviso: “Falhar a entrada a tempo é perder, sem apelo nem agravo, uma oportunidade que pode não voltar mais”. O chefe de Estado deixou claro que num período em que o país disporá de “meios de financiamento adicionais”, estes devem ser “usados com rigor, eficácia e transparência”, até porque temos “dois milhões de pobres e alguns mais em risco de pobreza”. Se frisou a entrada num “novo ciclo económico e da multiplicação do conhecimento”, e também “do clima, energia, digital, ciência, tecnologia e renovado tecido produtivo”, a questão de estarmos ou não num novo ciclo político não deixou de pairar no ar.

É bom lembrar que dias antes, em entrevista à TVI, Marcelo asseverara que “as autárquicas têm sempre uma leitura nacional” e “os partidos vão ter de refletir”. O Presidente que nunca despiu bem o fato de comentador político considera que à esquerda se pode “reforçar a prazo a base de poder ou enfraquecê-la”, enquanto a direita enfrenta um problema de “estratégia” e não de “liderança” se quiser criar a alternativa “plausível e forte” que o próprio Marcelo há tanto afirma fazer falta. “Aquilo que às vezes provoca mais instabilidade é não haver alternativas fortes”, defendeu o homem que promete: “Não tenciono, se for possível, ter exercício do poder de dissolução do Parlamento até ao fim do mandato parlamentar”.

Preocupado com a aprovação dos dois orçamentos de Estado que faltam na atual legislatura, Marcelo falou dos fundos europeus e sentiu necessidade de sublinhar que “o Plano de Recuperação e Resiliência não é monopólio do PS nem do Governo, é do país”, uma vez que “os líderes partidários têm sempre a tentação de, no poder, utilizar os instrumentos de poder”. Quem tiver ouvido o primeiro-ministro durante a campanha das autárquicas não terá dúvidas quanto ao destinatário deste aviso. Que, já agora, nos lembra a origem etimológica do nome do nosso regime: a res publica é coisa pública.

António Costa, que foi a Eslovénia participar num encontro de dirigentes europeus, não acusou o toque. Promete que o orçamento de Estado para 2022 “vai dar muita atenção às classes médias e em particular às novas gerações” e assegura que o diálogo com os parceiros parlamentares “está a correr bem”. O Conselho de Ministros de sexta-feira será crucial para aprovar a versão final do documento, nota o chefe de Governo, reconhecendo que “o exercício do Orçamento é sempre relativamente demorado” e anunciando prioridades: “relançamento da nossa economia, com forte crescimento do investimento público” e atenção ao desafio demográfico.

Resta agora conseguir a viabilização das contas públicas para o próximo ano pela Assembleia da República, o que passará por negociações com o PCP, o BE, o PAN e as duas deputadas independentes. Numa República regida por democracia representativa, como a que ontem se festejou, é ao Parlamento que cabe exercer a soberania dos seus representados. Este texto de opinião do diretor do “Público”, Manuel Carvalho, parece-me uma boa recomendação a esse respeito.


Mantenhas.