quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Orçamento ou caos?

Patrões e sindicatos recusaram-se a fechar acordo com o Governo sobre o pacote de medidas batizado como agenda para o trabalho digno. Uns consideram que se vai demasiado longe, outros defendem que se devia ir mais além. Sem consensos capazes de transformar a concertação social em algo mais do que um eufemismo, o Executivo decidiu avançar. Esta quinta-feira, em conselho de ministros, deverá aprovar as 70 medidas que, em sucessivas reuniões com representantes dos empresários e dos trabalhadores, deixaram um rasto de divergências insuperáveis.


Governo tem pressa porque está sob pressão e tem necessidade de a aliviar. Com a votação do Orçamento do Estado para 2022 agendada para 27 de Outubro, precisa de derrubar a relutância dos parceiros que, à esquerda, lhe têm permitido manter-se à tona. É desta forma que um dossiê que pouco tem a ver com o documento que estabelece o que o Estado vai cobrar e aquilo que vai gastar no próximo ano foi arrastado, irremediavelmente, para o jogo negocial que tenta salvar o Orçamento de um chumbo e evitar a consequente crise política.

Até à hora da verdade, as aparências podem ser enganadoras. Muito daquilo a que se assiste por estes dias nas relações tensas entre o Governo, o PCP e o Bloco de Esquerda não é diferente da coreografia de periodicidade anual em que cada membro da geringonça tenta ganhar alguma coisa sem perder a face perante os seus eleitores. Se a possibilidade de uma crise política existe, com a eventual queda do Governo e a convocação de eleições legislativas antecipadas, não se percebe quem poderá ter alguma coisa a ganhar, pelo menos com relevância suficiente para compensar o risco de arcar com o ónus.

PCP e Bloco lambem as feridas da má prestação nas eleições autárquicas. Comunistas em queda e um BE insignificante no poder local não terão grande interesse em sujeitar-se, tão cedo, a um novo escrutínio, ainda para mais carregando sobre os ombros a potencial responsabilidade por um vendaval político, expressão adequada a um cenário em que, sem maiorias absolutas, pontes desfeitas entre PS e os partidos à esquerda e uma direita fragmentada, a dificuldade de construir soluções estáveis e duradouras abriria as portas ao pesadelo da ingovernabilidade.

É provável que o PS não exclua a possibilidade de seguir uma estratégia de vitimização destinada a colher votos. Mas o impasse em que a viabilização do Orçamento do Estado está mergulhado é, em primeiro lugar, responsabilidade de António Costa e do desdém com que fechou a porta a qualquer entendimento com o PSD, colocando-se nas mãos de parceiros que não fazem cerimónia em aceitar e usar o poder desproporcionado que lhes foi concedido pelo líder do Governo. A hipótese, alimentada por diversas sondagens, de os socialistas irem a eleições e arrecadarem uma maioria absoluta, foi má conselheira. Semeou arrogância e cultivou a miopia política.

Apertado, António Costa não tem para onde se virar. Ao utilizar declarações do Presidente da República para coagir o PCP e o Bloco, não deixa dúvidas sobre a posição periclitante em que se enredou e sobre o estado de degradação a que chegou o debate sobre as políticas públicas e a aplicação dos recursos disponíveis para as concretizar. O aroma é de fim de ciclo. Mas a probabilidade de a alternativa vir a ser algo semelhante ao caos é elevada. Marcelo Rebelo de Sousa sabe-o e preferia trilhar outra via. O Orçamento é mau? É. Deve ser aprovado? Deve.


OUTRAS NOTÍCIAS

Tânia Loureiro Gomes deu mais três dias a Maria de Jesus Rendeiro, mulher do ex-banqueiro João Rendeiro, que se encontra em parte incerta, para devolver 15 obras que fazem parte da colecção de arte arrestada pelo tribunal. O novo prazo fixado pela juíza expira no próximo sábado.

Os sindicatos da Função Pública reuniram-se ontem, quarta-feira, com a ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, mas esbarram com a intransigência do Governo. Os aumentos salariais no sector serão de 0,9% em 2022. Uma greve, convocada por estruturas ligadas à UGT e à CGTP, está a ser preparada para 12 de Novembro.

Rui Rio apresenta esta sexta-feira, no Porto, a recandidatura à liderança do PSD. A decisão de avançar é justificada por uma questão de “convicções” e por colocar o país “em primeiro lugar”. “Injustiça” e “deslealdade” são palavras que os apoiantes do actual presidente social-democrata utilizam para caracterizar o comportamento de Paulo Rangel, que está na corrida contra Rio.

Marcelo Rebelo de Sousa promulgou o diploma do Governo que se destina a limitar os preços dos combustíveis, mas deixou críticas. As medidas são “paliativas”, considera o Presidente da RepúblicaAntónio Costa prometeu anunciar, até ao final desta semana, novas mudanças com o objectivo de minorar os impactos da actual crise. Esta quinta-feira, em Bruxelas, o primeiro-ministro vai propor, no Conselho Europeu, a possibilidade de se estudar a aquisição conjunta de combustíveis pelos 27. “Provou bem nas vacinas”, afirmou António Costa.

O ambiente na cimeira de líderes europeus pode vir a aquecer. O assunto que ameaça fazer subir a temperatura é a avaliação do estado de Direito na Polónia, tema que Varsóvia quis levar a debate. Susana Frexes antecipa o que está na agenda de discussões, num Conselho Europeu que deverá ser o último em que a chanceler alemã Angela Merkel participa.

“O modelo de leilão que a ANACOM inventou é, obviamente, o pior modelo de leilão possível”. Foi desta forma que o líder do Governo se manifestou, no Parlamento, sobre o leilão da quinta geração de comunicações móveis. O processo arrasta-se há quase nove meses e António Costa foi mais longe: quem defendeu que “era preciso limitar os poderes dos governos para dar poderes às entidades reguladoras, deve refletir bem sobre este exemplo”.

Rui Moreira tomou posse, esta quarta-feira, para um terceiro e último mandato como presidente da Câmara Municipal do PortoPrometeu terminar os projectos que a pandemia atrasou, respeitar os compromissos eleitorais e escutar os vereadores da oposição.

Uma nova variante do coronavírus que desencadeia a covid-19 está a deixar em alerta as autoridades do Reino Unido. É conhecida como AY. 4.2, será uma sub-estirpe da Delta, mas mais contagiosa. A imprensa britânica estima que 6% dos novos casos de infecção no país já tenham origem nesta nova variante. Nos Estados Unidos, foram autorizadas as doses de reforço das vacinas da Moderna e da Johnson & Johnson.

Fadiga, perda de memória e de olfacto. A ciência ainda tem de percorrer um longo caminho para compreender as sequelas da covid-19 e os casos em que a doença se prolonga e provoca alterações cognitivas. "Nos casos de covid grave que estiveram hospitalizados nos cuidados intensivos já se sabe que as alterações cognitivas poderão rondar entre 30 a 60% dos doentes", afirma Sara Cavaco, diretora da Unidade de Neuropsicologia do Centro Hospitalar Universitário do Porto.

Há 21 anos, a ETA matou a tiro o marido de Maixabel Lasa, que na época era governador civil da província basca de Guipúscoa. Foi diretora do Gabinete de Atenção às Vítimas do Terrorismo do Governo regional do País Basco e incentivou encontros redentores entre vítimas e agressores. Em entrevista ao Expresso, afirma: “São os presos arrependidos quem mais deslegitima a história da ETA”.

UNICEF calcula que um em cada três estudantes com idades compreendidas entre os 13 e os 15 anos seja vítima de bullying e que este é o tipo de violência mais comum nas escolas. Rapazes e raparigas estão igualmente expostos. Esta quarta-feira assinalou-se o dia mundial de combate a esta forma de agressão.

Benfica perdeu esta quarta-feira, por 4-0, o jogo contra o Bayern de Munique a contar para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Numa crónica intitulada “Sané e a arte do dilúvio bávaro”, Hugo Tavares da Silva escreve que o Bayern é, ​​”porventura, a melhor equipa que existe e, agravando a situação, com o maior apetite do mundo”.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Haja paciência

Em vésperas de receber os partidos, para falar com eles sobre o Orçamento do Estado para 2022, o Presidente da República já foi adiantando serviço: na quarta-feira à tarde, em declarações à margem de uma visita à nova sede da Ajuda de Berço, Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de mostrar que não há mão que embale o país e o salve de eleições antecipadas caso o Orçamento não seja aprovado. Governar em duodécimos e sem fundos europeus pura e simplesmente não é possível, avisou o Presidente, como quem diz: se os partidos querem mesmo "brincar" com o OE e arriscar o seu chumbo, preparem-se para pagar a fatura.

Palavras que vêm de um Presidente que repetidas vezes (a última das quais na semana passada, numa entrevista a Miguel Sousa Tavares) tem afirmado que gostaria de chegar ao termo do segundo mandato sem utilizar o maior dos seus poderes: o da demissão do Governo e a dissolução  do Parlamento. Mas que agora deixa claro que não hesitará em fazê-lo se a situação política a isso o conduzir. E o chumbo do Orçamento, neste contexto político (apenas no início do fim da crise pandémica) e sem que se vislumbre uma alternativa de Governo sólida dentro da atual composição parlamentar, seria um óbvio cenário de "fim de linha".

Com tão estridente alarme, Marcelo veio dar uma nova consistência à hipótese (cíclica, todos os anos por esta altura) de uma crise política. Que não é evidente que aproveite a alguém, mas que o Governo (aparentemente) também não menospreza: anteontem à noite, na SIC Notíciaso secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares não jurou que dia 27 haja Orçamento aprovado na generalidade. "Neste momento ainda não existe um entendimento", admitiu Duarte Cordeiro, embora sublinhando que "o processo negocial é longo" e que o Governo "já sinalizou que está disponível para prosseguir as negociações" nalgumas das matérias que BE e PCP exigem ver tratadas no documento. Também o ministro da Economia, em entrevista à RTP, levou a sério a ameaça: "Não me parece que se trate de um ritual com desfecho certo”afirmou Pedro Siza Vieira, admitindo que “há esforços” que ainda podem ser feitos. Será, talvez, como diz o Presidente, uma questão de "mais ou menos entendimento, mais ou menos paciência”, e o Orçamento acaba, como sempre acabou nestes 47 anos de democracia, por passar?

Rui Rio não quis esperar pela resposta e foi o primeiro a tirar partido do cenário de crise política chancelado pelo Presidente foi Rui Rio. A direção do PSD tinha acabado de tornar pública uma proposta para a realização das diretas para a escolha do próximo presidente do partido a 4 de dezembro e do congresso entre 14 e 16 de janeiro. Nem duas horas depois, o líder social-democrata veio apelar aos conselheiros nacionais que ignorassem a (sua) proposta e adiassem as eleições internas para depois de se saber se há ou não legislativas antecipadas: “Se este Orçamento não passar, como pode acontecer, o PSD é apanhado em plenas diretas e completamente impossibilitado de disputar as eleições legislativas taco a taco”, justificou.

A decisão de Rio terá apanhado boa parte do PSD de surpresa, nomeadamente Paulo Rangel, que já estaria a preparar para os próximos dias o anúncio da sua candidatura à presidência do partido. Ao suster o avanço imediato dos eventuais adversários internos, o líder social-democrata ganha precioso tempo. E se vier mesmo a haver legislativas antecipadas assegura que será ele o candidato a primeiro-ministro. Até pode vir a perder (novamente) para António Costa (embora ele próprio se mostre convicto que os resultados que obteve nas autárquicas auspiciam sucesso nas legislativas) mas se assim for, sairá pela porta grande: "despedido" pelos portugueses nas urnas, ao invés de pelos seus em congresso. 


OUTRAS NOTÍCIAS


Mesmo que a procissão negocial ainda vá no adro, e tudo possa ainda acontecer, convém mantermos o rumo na labiríntica discussão orçamental. O Expresso preparou-lhe um guia prático para se orientar no que, com mais ou menos acertos, aí vem em 2022.

Depois de 87 médicos se terem demitido do Hospital de Setúbal, outros 8 da urgência psiquiátrica do Hospital de São João e das urgências do Hospital de Leiria terem encerrado por falta de pessoal, o Sindicato Independente dos Médicos e a Federação Nacional dos Médicos marcaram greve para os dias 22, 23 e 24 de novembro"Não conseguimos aguentar mais", explicam, deixando "nas mãos do Governo" a responsabilidade de evitar a concretização da paralisação. A ministra da Saúde leva, desta forma, mais peso na mala com que segue para o Porto onde, ontem à noite, inaugura as sessões de apresentação do Orçamento do Estado aos militantes socialistas. 

Os despedimentos coletivos em grandes empresas que dão lucro é um dos engulhos nas negociações entre a esquerda e o Governo. A ajudar (ou não) à conversa, iniciou-se ontem de manhã no Tribunal do Trabalho, em Lisboa, o julgamento da providência cautelar contra despedimentos no Santander Totta Interposta pelos sindicatos dos bancários da UGT Mais Sindicato, o Sindicato dos Bancários do Centro e o Sindicato dos Trabalhadores do Setor Financeiro de Portugal.

Prossegue o folhetim em torno de João Rendeiro. A Judiciária apurou que faltam 15 quadros à coleção de arte apreendida ao antigo banqueiro, agora fugido à justiça, para garantir o pagamento de indemnizações aos lesados do BPP.

Foram divulgados ao final do dia de anteontem os resultados da 2.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior. Apenas 40% dos candidatos foram colocados. Mas ainda há mais de 4000 vagas por ocupar.

Um ataque com arco e flecha fez na quarta-feira “cinco mortos e dois feridos” na cidade norueguesa de Kongsberg, a cerca de 80 quilómetros da capital, Oslo.

A República Popular da China voltou a ameaçar com a anexação de Taiwan. Este "ponto muito quente da política internacional" é o tema da conversa do Expresso da Manhã desta quinta-feira. Quinze minutos para ficarmos a perceber melhor o assunto, numa conversa do jornalista Paulo Baldaia com a professora de Relações Internacionais Raquel Vaz Pinto.


FRASES

Cirilo João Vieira, Jurista e Consultor:


"Tenho para mim que com mais ou menos entendimento, mais ou menos paciência, o Orçamento acaba por passar na Assembleia da República”

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República:

"É um grande orçamento para o país e, portanto, temos que fazer tudo para assegurar que é aprovado"

Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas:


"Se este Orçamento não passar, como pode acontecer, o PSD é apanhado em plenas diretas e completamente impossibilitado de disputar as eleições legislativas taco a taco”

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Implantação da República Portuguesa

 A República portuguesa fez ontem 111 anos e a independência de Portugal, 878 anos — ou, melhor dito, o seu reconhecimento pelo reino de Leão consagrado no Tratado de Zamora, já que o país a conquistara na prática quatro anos antes, proclamada por Afonso Henriques, tendo o selo de aprovação papal chegado 36 anos depois, na bula Manifestis Probatum de Alexandre III. Parabéns aos portugueses, portanto, por uma espécie de aniversário de Portugal, que tem a originalidade de celebrar em feriado a restauração da independência mas não (oficialmente, pelo menos) a conquista da mesma. E parabéns à República, que, quando democrática, é o melhor regime até hoje encontrado.


As celebrações do 5 de Outubro nos Paços do Concelho, de cuja varanda José Relvas proclamou o novo regime em 1910, aconteceram, este ano, poucos dias após eleições em que o povo de Lisboa escolheu mudar de presidente da Câmara. A proximidade de datas sublinha um dos princípios republicanos, aquele que dita que o exercício do poder depende do consentimento dos governados, que o podem outorgar e revogar. A assistir ao último discurso de Fernando Medina nesta cerimónia estava ­— a convite deste último, elogiado por Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos — o novo autarca eleito, Carlos Moedas que pega no testemunho a 18 de outubro.

“É o sentido de continuidade das instituições, de dignificação da política e de convivência democrática”, afirmou o edil cessante, desejando ao senhor que se segue “votos do maior sucesso ao serviço de Lisboa e dos lisboetas”, como conta a Rosa Pedroso Lima na reportagem do Expresso sobre a curta comemoração. (Nota à margem: terá de ser sempre um senhor que se segue? Para quando uma senhora? Entre os 308 presidentes de Câmara eleitos a 26 de setembro só 28 são mulheres, o que é bem espelho da sub-representação das mesmas em cargos dirigentes em Portugal).

Carlos Moedas explicou o prazer com que aceitou o desafio de Medina: “É muito importante estar aqui e muito importante que as transições sejam feitas com toda esta dignidade com que a estamos a fazer entre o presidente da câmara e o presidente eleito. É muito importante para todos nós e para a democracia”. Medina falou de mudança climática e do “imperativo moral” de enfrentá-la. “É nas cidades, onde vive 70% da população mundial, que está em jogo esse futuro. Da mesma forma que nos mobilizamos numa pandemia para proteger a saúde, temos a responsabilidade de nos mobilizarmos para proteger a vida e a saúde perante a mudança climática”, sustentou.

Inquieto também com a ascensão de forças demagógicas, conquanto “muito minoritárias”, que põem em causa “o património fundamental dos direitos humanos, da democracia representativa, da igualdade na cidadania e dignidade fundamental de todos os homens e mulheres” e “conseguem obter na sociedade do espetáculo uma projeção desproporcionada”, o socialista lastima “a atuação de responsáveis políticos que cedem ao que julgam ser o voto fácil” e exige “aos democratas que tenham uma consciência clara do que está em causa e não cedam à chantagem demagógica e ao ar do tempo caindo na armadilha de responder ao populismo com populismo”. Acrescentou que “não há radicalismo nem populismo que sejam bons para a democracia, ambos são o caminho para a desagregação coletiva”.

A festejar a República estava também, é claro, quem hoje preside à mesma. Marcelo Rebelo de Sousa arrancou com “duas palavras prévias: a primeira para evocar com saudade um grande presidente da câmara e um grande Presidente de Portugal, Jorge Sampaio; a segunda para agradecer, em termos nacionais, ao senhor presidente da câmara municipal que está a terminar o seu mandato e para formular, também em termos nacionais, um voto de felicidades ao senhor presidente da câmara que o vai iniciar”. A democracia está viva e o Presidente quer a evocação do 5 de Outubro seja também ela “uma data viva, não uma memória sem futuro ou um ritual sem alma”.

Uma República viva precisa, é claro, de cidadania crítica e de políticos atentos. Veio, pois, o aviso: “Falhar a entrada a tempo é perder, sem apelo nem agravo, uma oportunidade que pode não voltar mais”. O chefe de Estado deixou claro que num período em que o país disporá de “meios de financiamento adicionais”, estes devem ser “usados com rigor, eficácia e transparência”, até porque temos “dois milhões de pobres e alguns mais em risco de pobreza”. Se frisou a entrada num “novo ciclo económico e da multiplicação do conhecimento”, e também “do clima, energia, digital, ciência, tecnologia e renovado tecido produtivo”, a questão de estarmos ou não num novo ciclo político não deixou de pairar no ar.

É bom lembrar que dias antes, em entrevista à TVI, Marcelo asseverara que “as autárquicas têm sempre uma leitura nacional” e “os partidos vão ter de refletir”. O Presidente que nunca despiu bem o fato de comentador político considera que à esquerda se pode “reforçar a prazo a base de poder ou enfraquecê-la”, enquanto a direita enfrenta um problema de “estratégia” e não de “liderança” se quiser criar a alternativa “plausível e forte” que o próprio Marcelo há tanto afirma fazer falta. “Aquilo que às vezes provoca mais instabilidade é não haver alternativas fortes”, defendeu o homem que promete: “Não tenciono, se for possível, ter exercício do poder de dissolução do Parlamento até ao fim do mandato parlamentar”.

Preocupado com a aprovação dos dois orçamentos de Estado que faltam na atual legislatura, Marcelo falou dos fundos europeus e sentiu necessidade de sublinhar que “o Plano de Recuperação e Resiliência não é monopólio do PS nem do Governo, é do país”, uma vez que “os líderes partidários têm sempre a tentação de, no poder, utilizar os instrumentos de poder”. Quem tiver ouvido o primeiro-ministro durante a campanha das autárquicas não terá dúvidas quanto ao destinatário deste aviso. Que, já agora, nos lembra a origem etimológica do nome do nosso regime: a res publica é coisa pública.

António Costa, que foi a Eslovénia participar num encontro de dirigentes europeus, não acusou o toque. Promete que o orçamento de Estado para 2022 “vai dar muita atenção às classes médias e em particular às novas gerações” e assegura que o diálogo com os parceiros parlamentares “está a correr bem”. O Conselho de Ministros de sexta-feira será crucial para aprovar a versão final do documento, nota o chefe de Governo, reconhecendo que “o exercício do Orçamento é sempre relativamente demorado” e anunciando prioridades: “relançamento da nossa economia, com forte crescimento do investimento público” e atenção ao desafio demográfico.

Resta agora conseguir a viabilização das contas públicas para o próximo ano pela Assembleia da República, o que passará por negociações com o PCP, o BE, o PAN e as duas deputadas independentes. Numa República regida por democracia representativa, como a que ontem se festejou, é ao Parlamento que cabe exercer a soberania dos seus representados. Este texto de opinião do diretor do “Público”, Manuel Carvalho, parece-me uma boa recomendação a esse respeito.


Mantenhas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

“Quero dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”

Novo discurso golpista, escreve o “Estadão”, do Presidente do Brasil num ato curto e simples na Avenida Paulista, artéria central de São Paulo, na tarde de 7 de setembro. Ameaçou ministros, jurou que nunca mais lhes obedecerá em novo ataque ao Poder Judiciário.

Dirigindo-se aos milhares de apoiantes que ali se deslocaram enchendo as vias mandou recados eleitoralistas“Quero dizer aqueles que querem me tornar inelegível em Brasília que só Deus me tira de lá”. “Quero dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”, concluiu.

Jair Bolsonaro repete a mentira esperando que se torne verdade, sem nunca apresentar provas que sustentem as afirmações, dizendo que as urnas electrónicas usadas pela Justiça Eleitoral não são seguras: “Não podemos admitir um sistema eleitoral que não oferece qualquer segurança por ocasião das eleições”, disse Bolsonaro. Uma alegação enganosa, escreve o “Estadão”, já que o sistema tem vários mecanismos de segurança que sempre funcionaram. “Desde a sua implementação em 1996, nunca houve prova ou evidências de fraudes” envolvendo urnas electrónicas. E a introdução do voto impresso foi rejeitada pela Câmara dos Deputados em agosto.

Na Avenida Paulista, montado no carro de som, Bolsonaro gritou que não obedeceria. Usou a recusa do voto impresso para radicalizar os seus apoiantes e ataca o processo eleitoral numa altura em que a sua popularidade está em queda. Em maio passado, comentou uma pesquisa de intenção de voto que apurou que ele perderia as eleições a favor de Luís Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PDT) dizendo “Esse canalha, pela fraude, ganha as eleições do ano que vem”.

Em Brasília, os apoiantes indefectíveis de Bolsonaro tomaram as ruas para apoiarem um golpe de Estado liderado pelo Presidente. Em Brasília, depois de confrontos com a polícia, tal como noutras 24 cidades capitais de todo o país, a força de apoio foi ruidosa“Presidente Bolsonaro faz uma intervenção. As nossas forças armadas estão empenhadas na democracia e na nossa liberdade”.

OUTRAS NOTÍCIAS

OUTRAS NOTÍCIAS


Afeganistão 1. Os talibãs anunciaram um novo Governo no Afeganistão, país que passa a ser um “Emirado Islâmico”. O líder do novo Governo interino é Mullah Mohammad Hassan Akhund, um dos fundadores do movimento, cujo nome figura na lista de sanções das Nações Unidas. Não inclui mulheres. É quase exclusivamente de etnia pastune. Reportando a partir de Cabul, o correspondente da Aljazeera disse que muitos dos nomeados eram “velhas caras” do governo de 1996 a 2001.

Afeganistão 2. Caiu o Vale do Panjshir, região montanhosa considerada inexpugnável em 40 anos de guerra e única bolsa ainda não tomada pelos talibãs. O líder da resistência, Ahmed Massoud, não aceitou a derrota. Encontra-se em parte incerta, afirma ter do seu lado forças do exército regular afegão e milícias locais e é o filho do famoso mujahedin Ahmed Shah Massoud, assassinado a 7 de setembro de 2001, depois de avisar repetidamente o Ocidente de que Osama Bin Laden preparava um ataque ao Ocidente de larga escala. “Estamos no Panjshir e a nossa resistência vai continuar”, escreveu na sua conta de Twitter.

Afeganistão 3. Só os tiros para o ar disparados pelos talibãs dispersaram as manifestações nas ruas de Cabul que clamaram ao longo de toda a terça-feira por liberdadeAs pessoas responderam às centenas ao apelo de Ahmed Massoud para que resistissem à ocupação talibã.

Afeganistão 4. Face a um desfecho indesejável, parte do investimento norte-americano ao longo das últimas décadas no Afeganistão poderá virar-se contra a população do país. É o caso, divulgado pela Associated Press, da base de dados, incluindo biométricos, da população afegã construída com o objetivo de promover a lei e a ordem e o controlo modernizando um Estado destruído por décadas de guerra. Os dados caíram nas mãos dos talibãs e podem vir a ser usados para pressão social e punição de supostos inimigos de um Estado.

Medida excecional é como a Comissão Europeia classifica as multas impostas à Polónia por se recusar a obedecer às medidas do Tribunal de Justiça Europeu que procuram repor o normal funcionamento da justiça no país.

Manifestantes anti-vacinas atiram gravilha a Justin Trudeau.

Líderes dos grupos de vigília por Tiananmen foram presos em raide policiais em Hong Kong.

Acapulco foi atingido por um sismo de magnitude 7 na escala de Richter. Há pelo menos um morto a registar

Oposição de Myanmar anuncia “guerra defensiva” contra a junta militar.

Escalões do IRS desdobramVeja como. Porque falta saber quanto.

(Alguns portugueses vão duvidar, mas) Este foi o verão com temperaturas mais altas desde que existem registos: 48,8º na Sicília e 48º em Atenas.

Quatro em cada cinco adolescentes já foram vacinados contra a covid-19, escreve o Público em manchete enquanto o jornal i refere que as escolas perderam mais de 400 mil alunos em dez anos; Ciganos usam disciplina de voto e decidem quem vai ganhar eleições em Moura, escreve o DN e o JN destaca Seguradora condenada em acidente mortal com carro elétrico demasiado silencioso.

Seleção portuguesa vence o Azerbaijão (3-0) em jogo de qualificação para o Mundial de 2022.



Caro leitor, boa leitura.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

A “corrida contra o tempo em Cabul” e a missão (quase) impossível

 A missão já era de uma complexidade especialmente difícil. O problema agravou-se ontem, quinta-feira, quando duas explosões, junto ao aeroporto, confirmaram as ameaças que faziam antever um “ataque terrorista iminente”.


O atentado, que fez pelo menos 60 mortos e 140 feridos (o balanço não é definitivo) foi reivindicado pelo Daesh. “Não vamos esquecer e não vamos perdoar. Vamos fazer-vos pagar”- Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos, reagiu assim ao ataque.

Cabul é cada vez mais terreno de guerra onde milhares de civis permanecem encurralados entre um regime que não desejam e o único local onde lhes podem ser prestada ajuda e onde não conseguem chegar.

Augusto Santos Silva fala ao Expresso das condições “muito difíceis” no terreno e numa “corrida contra o tempo” que possa permitir receber em Portugal muitos afegãos… “muitos mais” do que os primeiros dados apontavam.


Centenas de famílias portuguesas disponíveis para acolher afegãos

 

A tensão no Afeganistão não pára de aumentar, à medida que se aproxima a data limite (último dia de agosto) para a retirada das forças militares estrangeiras. Ontem, quinta-feira, a situação tornou-se ainda mais dramática, com duas explosões no exterior do aeroporto de Cabul. Os quatro militares portugueses que foram enviados para o aeroporto da capital afegã estão bem.

Por cá, destaque para mais duas Feiras do Livro, uma  começou ontem, outra hoje. Têm recordes de oferta, mas não, o confinamento não fez aumentar a leitura.

Também por cá, 7.000 trabalhadores independentes não estão a cumprir as suas obrigações para com a Segurança Social. Mas a culpa não é deles.

Por falar em trabalhadores, apesar de o desemprego registado estar a descer desde há quatro meses, há mais novos inscritos no centro de emprego. Está explicado AQUI.

No noticiário nacional, mais duas chamadas: os comercializadores de eletricidade queixaram-se à autoridade da concorrência e o Conselho Superior da Magistratura negou um relatório que José Sócrates tinha pedido e que o Ministério Público diz que pode ser divulgado.

Na opinião, Daniel Oliveira recorda financiamentos que foram feitos por patrões de grandes empresas a Hitler para falar dos financiamentos partidários em geral (dando um toque sobre o Chega). 

Boas leituras e um bom resto de dia, com livros, sem pânicos