segunda-feira, 2 de julho de 2012

Zuma diz que Desigualdades são uma "Grave Ameaça"

Joanesburgo - O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, alertou esta sexta-feira que as desigualdades resultantes do apartheid são uma "grave ameaça" ao futuro do país e que por isso irá trabalhar para que o Estado se empenhe mais na resolução desses problemas na política de propriedade das terras e do negócio mineiro.

Jacob Zuma declarou no final de um encontro do ANC, o partido no poder, que os capitalistas que enriqueceram durante o apartheid ainda têm um peso desproporcionado na economia 18 anos depois do fim daquele regime.

"Se continuarmos assim, os ganhos da democracia serão postos em causa porque aqueles que sofrem acabarão por dizer "Basta!", disse, citado pela agência Reuters, o presidente sul-africano, na reunião do seu partido.

Apesar destas declarações, Jacob Zuma não se chegou a referir a potenciais .

Brasil e ONU levam Programa de Aquisição de Alimentos para África


Brasil-O governo brasileiro, em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU), inicia na próxima semana as primeiras atividades do Programa de Aquisição de Alimentos (PPA) na África. De segunda-feira (2 de Julho) até sexta-feira (6 de Julho), o Brasil e a ONU promovem, em Brasília e Alagoas, o seminário internacional Programa PAA-África – Compras de africanos para a África, que reunirá representantes de cinco países daquele continente.

A iniciativa é uma ação conjunta do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), da Coordenação-Geral de Ações Internacionais de Combate à Fome (CGFome) do Ministério das Relações Exteriores (MRE), do Programa Mundial de Alimentos (PMA), da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e do Departamento do Reino Unido para o Desenvolvimento Internacional (DFID).

O seminário sobre o PAA-África começa às 9h de segunda-feira, na Sala Santiago Dantas, do Palácio do Itamaraty, em Brasília. O MDS será representado pela secretária de Segurança Alimentar e Nutricional, Maya Takagi, na abertura do evento.

Até quarta-feira (4), serão promovidas mesas de debates e trabalhos em grupo.

De quarta até sexta-feira, as delegações africanas conhecerão a experiência de compras governamentais de alimentos no município de Arapiraca, em Alagoas.

Projeto base – Inicialmente, o Programa PAA-África será desenvolvido no Níger, em Maluí, Moçambique, no Senegal e na Etiópia. A proposta é que cada um desses cinco países desenvolva um projeto com base na experiência brasileira do PAA. Para isso, a Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) contratou cinco consultores brasileiros que farão o diagnóstico da situação de cada país e auxiliarão no desenho de um projeto-piloto de compras governamentais de alimentos.


O período de permanência dos consultores em cada nação varia entre três e sete meses. O investimento total do programa é de US$ 2 milhões.

Além disso, o PAA-África tem em sua estrutura a troca constante de informações e experiências. A ideia é que os participantes conheçam o potencial das compras locais de alimentos como ferramenta de recuperação do sistema alimentar em situações de emergência.

CEDEAO Quer Licença da ONU para Intervir


Reunidos sexta-feira passada em cimeira em Yamussukro, capital política da Costa do Marfim, os líderes dos Estados da CEDEAO querem a autorização do órgão máximo da Organização das Nações Unidas (ONU) para enviarem uma força miluitar contra os grupos que controlam o Norte maliano.

Um destes grupos, o Movimento para a Unicidade e a Guerra Santa na África Ocidental (MUJAO), que controla a região com a Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI), da qual é considerado uma dissidência, e o Ansar Dine (Defensores do Islão), já ameaçou atacar os países que integrem a expedição.

"Os ramos do MUJAO em vários países estão prontos para atacar os interesses dos países que tiverem a intenção de participar na força da CEDEAO", acusada de querer "fazer a guerra aos 'mujahidine' [combatentes] no Norte do Mali", afirmou o porta-voz deste movimento, Adnan Abu Walid Sahraui, em mensagem escrita enviada à agência noticiosa francesa na capital do Mali, Bamako.

Os chefes de Estado da CEDEAO renovaram o seu "empenho na resolução pacífica" do conflito, mas reiterou a sua vontade de recorrer a uma intervenção armada se necessário, segundo o comunicado lido pelo presidente da Comissão da CEDEAO, Kadré Désiré Ouédraogo.

Para acelerar o processo, foi decidido "o envio imediato de uma missão técnica de avaliação ao Mali", composto por militares, para "preparar o terreno".

CEDEAO Vai Ajudar a Guiné-Bissau


Dakar-O presidente de Transição na Guiné Bissau, Serifo Nhamadjo, disse que a Comunidade dos Estados Económicos da África Ocidenta levantou as sanções à Guiné-Bissau e vai ajudar financeiramente o país.

As declarações foram feitas durante a sua escala em Dakar, no Senegal. O presidente do Governo de Transição na Guiné Bissau, Serifo Nhamadjo, afirmou que a CEDEAO levantou as sanções à Guiné-Bissau e vai ajudar financeiramente o país e falou ainda da situação do Mali

Mercosul Aceita Adesão da Venezuela Após Suspender Paraguai

Líderes latino-americanos no final da reunião do cúpula do Mercosul.
Líderes latino-americanos no final da reunião do cúpula do Mercosul.

Os líderes latino-americanos reunidos na Argentina decidiram integrar a Venezuela no Mercosul. O país, quinto exportador mundial de petróleo, se tornará membro pleno do grupo em 31 de Julho. Como forma de punição após o impeachment do presidente Fernando Lugo, o Paraguai foi suspenso.
O Paraguai, suspenso e a Venezuela, dentro. Assim foi concluída a reunião do Mercosul em Mendoza, sexta-feira passada na Argentina. O encontro foi marcado pela ausência dos paraguaios, devido ao que os demais membros plenos do bloco (Brasil, Argentina e Uruguai) consideraram como uma ruptura da ordem democrática após a destituição do então presidente Fernando Lugo, há uma semana. "Não queremos que se instalem os 'golpes suaves' que, sob certa áurea de institucionalidade, significam a quebra da ordem democrática", anunciou a presidente argentina Cristina Kirchner, que transferiu a direção do bloco à brasileira Dilma Rousseff.

A suspensão do Paraguai vai continuar até que seja restabelecida a ordem democrática, a partir das eleições presidenciais em Abril do ano que vem. No entanto, a punição será apenas política. "As sansões econômicas sempre são pagas pelos povos, nunca pelos governos", explicou Kirchner.

Com a suspensão dos paraguaios, a Venezuela entra no Mercosul. Membro em "processo de adesão" desde 2006, Caracas dependia somente do Senado paraguaio, contrário à proposta. Os Congressos de Brasil, Argentina e Uruguai já tinham aprovado essa adesão.

Como todas as decisões do Mercosul precisam do consenso dos quatro membros, ao suspender o Paraguai, os demais países conseguiriam driblar a resistência de Assunção. A Venezuela vai passar a ser o quinto membro pleno do Mercosul em 31 de Julho numa reunião extraordinária do bloco no Rio de Janeiro.

Brasil Precisa Mudar de estratégia e Focar na Produtividade

Fabio Giambiagi e Armando Castelar, autores do livro "Além da Euforia" (Oscar Cabral e Anna Carolina Negri)."O Brasil precisa depender menos do capital e mais da produtividade" – Armando Castelar
Brasil-O governo federal anunciou na última quarta-feira mais um pacote com o intuito de tentar salvar a economia brasileira de um “pibinho”. A nova tentativa vem num momento em que o mercado - e o próprio Banco Central - rebaixa suas estimativas para 2012. Faltaram ousadia e visão à equipe da presidente Dilma, que apelou, uma vez mais, para a batida fórmula de tentar “salvar” o PIB com base na ampliação do consumo. A estratégia – que se mostrou bem-sucedida enquanto milhões de brasileiros ainda não tinham ascendido à classe média e não possuíam acesso ao crédito – dá hoje sinais de esgotamento. O país nem taõ pouco pode se dar ao luxo de contar com o cenário externo. Por uma década, o Brasil foi favorecido pela crescente demanda por suas commodities e pelo amplo acesso ao financiamento barato no mercado internacional. A combinação desses fatores resultou em crescimento e, de 2006 a 2010, euforia. Contudo, a dificuldade de reverter o quadro negativo que se arrasta desde a metade do ano passado começa a lançar por terra esse entusiasmo.

No pacote da semana passada, o governo resolveu oferecer seu próprio poder comprador para tentar estimular o PIB. A opção deixa antever que está perdendo fôlego o apoio do consumo ao crescimento. De um lado, as famílias, limitadas por um endividamento recorde, não se sentem compelidas a comprar mais – mesmo com prorrogação do IPI reduzido de eletrodomésticos e móveis, automóveis mais baratos, estímulo ao crédito via bancos públicos, etc. De outro, o empresário, amedrontado pela deterioração da economia global, tem se arriscado pouco a investir. Para destravar o setor privado de nada têm adiantado a postura cada vez mais intervencionista do governo no campo microeconômico – regras que mudam a todo o momento, exigência cada vez maior de conteúdo nacional nas fábricas – e o fechamento “branco” do país à concorrência externa.

O problema apontado por analistas é que será pífio o impacto de tais compras governamentais na economia. O volume anunciado de 8,4 bilhões de reais em aquisições de caminhões, tratores, retroescavadeiras, equipamentos hospitalares, etc, representa só 0,2% do PIB. O comentário mais comum entre os economistas é que o governo criou um ‘pacote’ apenas para fazer propaganda e atender os interesses corporativistas de meia dúzia de indústrias – coincidentemente aquelas para as quais a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) vinha fazendo lobby escancarado.


O cenário que se coloca hoje diante dos brasileiros felizmente não é catastrófico, mas se distancia daquela visão do “Brasil maravilha” dos últimos anos. Para mudar a perspectiva de taxas baixas de crescimento nas próximas décadas, o governo federal tem de começar a atacar os problemas estruturais da nação. Políticas de longo prazo para melhoria da educação, da taxa de poupança e da infraestrutura precisam ser bem estruturadas e postas em prática ainda que seus resultados não se mostrem visíveis no curto prazo.Essas ações é que tornarão o Brasil uma nação mais produtiva, isto é, capaz de gerar riqueza com maior eficiência.

A discussão sobre o que ainda precisa ser feito – a chamada "metade vazia do copo" – é o ponto central do livro Além da Euforia - Riscos e Lacunas do Modelo Brasileiro de Desenvolvimento (Editora Elsevier-Campus, 312 páginas), de Armando Castelar e Fábio Giambiagi, que será lançado oficialmente em 11 de julho, mas já pode ser encontrado em algumas livrarias. Os economistas falaram ao site de VEJA.

Por que o livro se chama “Além da Euforia”?

Armando Castelar – É uma referência ao fato de o Brasil ter vivido um período de euforia entre 2004 e 2010. Mas esse momento não vai perdurar indefinidamente. No livro, discutimos as razões disso. É preciso que haja um debate sobre o que precisa ser feito para melhorar a situação que virá depois que essa euforia passar.

Por que essa euforia vai passar?
Giambiagi – O Brasil teve condições excepcionais e favoráveis ao crescimento neste período. Duas delas são associadas ao cenário externo. Primeiramente, temos o índice de preço das exportações. Para se ter ideia, entre 1997 e 2002, esse indicador teve queda acumulada de 23%. Entre 2002 e 2011, contudo, houve um aumento impressionante de 165%. A segunda condição é o baixo nível das taxas de juros internacionais. Essa configuração de preços “nas nuvens” com uma taxa de juros externa pequena tirou a possibilidade de aumentar a absorção doméstica sem que fosse gerada uma situação muito dramática no balanço de pagamentos – ao contrário do que ocorreu em outros ciclos de expansão históricos.

Castelar – Parte do cenário externo favorável ao Brasil deriva da China, cujo quadro doméstico complicou um pouco nos últimos tempos. Os preços das exportações pararam de aumentar do jeito que vinham subindo e decaíram um pouco neste início de ano. O país começa a ter um pouco de dificuldade de crescimento internamente. Ainda assim, a situação dos preços continua bastante favorável ao Brasil conforme os padrões históricos. É preciso lembrar, contudo, da importância do cenário externo. Toda a América Latina teve melhora de desempenho muito semelhante à de nossa economia. Os países da região estão vivendo níveis recordes de baixa de desemprego, segundo dados recentes da Cepal. O mérito não é exclusivamente brasileiro.

No capítulo sobre produtividade, o livro afirma que a parcela dos economistas que defende estímulos ao consumo para alavancar o crescimento tem resistência a acreditar que o país começa a enfrentar limitações de oferta. Por que há tanta resistência?

Castelar – Isso é um corte histórico que data dos anos 1950 para cá. Prevalece a ideia de que se for aumentada a demanda, a oferta vai se apresentar. No livro, defendemos que é preciso ter políticas explicitas para o lado da oferta. Melhorar a produtividade, melhorar o ambiente de negócios, cuidar de ciência e tecnologia, etc.

Giambiagi – Eu e Armando destacamos no livro que a filosofia econômica hoje dominante no Brasil é aquela inspirada nas ideias do economista John Maynard Keynes, que publicou em 1936 a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Essa grande obra foi escrita no contexto da crise dos anos 1930 – período em que a indústria estava com grande capacidade ociosa –, fornecendo o conteúdo teórico para o presidente americano Franklin Roosevelt adotar a política do New Deal, que ajudou a tirar os Estados Unidos da sua situação de penúria. A prescrição de políticas ditas keynesianas, calcada no estímulo à demanda, pode se justificar por essa situação de abundância de capacidade ociosa, como aconteceu no mundo em 2008 e hoje se vê na Europa, por exemplo. Mas uma vez que o Brasil está ‘batendo no teto’ de ocupação de recursos físicos, nosso entendimento é que é preciso ‘mudar o software’ para enfatizar a importância da expansão da oferta. Estamos vivendo uma situação inédita nos últimos 30 anos.

O que acontecerá se o Brasil não mudar esse ‘software’?


Castelar – Capacidade ociosa significa que existem fábricas e trabalhadores treinados que não estão sendo utilizados. É algo bem diferente de quando já se está usando todo o potencial e é necessário aumentá-lo para conseguir expandir a produção. Essa ampliação de capacidade não é um processo rápido. O investimento privado no Brasil é inibido pela falta de infraestrutura, pelo ambiente de negócios e pela escassez de mão de obra capacitada. Em outras palavras, temos energia elétrica insuficiente e cara; estradas, portos e aeroportos congestionados; entre outros problemas. Tudo isso limita o crescimento uma vez que o custo aumenta e o investimento fica menos interessante. A empresa cresce mais devagar. No tocante à demanda, existem outras restrições. Uma é a poupança, que é dificultada quando existe grande aumento de consumo. A segunda é confluência de expansão do consumo e do investimento, o que tende a gerar um déficit mais elevado nas transações correntes do Brasil com o exterior. Esse déficit só não estourou nos últimos anos por conta do cenário externo favorável. Além disso, com o aumento forte do consumo interno, a taxa de câmbio evolui de maneira a se apreciar – e o país torna-se menos interessante aos investimentos, como por exemplo, se dá hoje no setor industrial. É preciso trabalhar essas questões para continuar crescendo. Resolvê-las é fundamental para eliminar essa crise de produtividade do Brasil.

No livro, vocês analisam que o crescimento do produto potencial brasileiro nas últimas décadas foi possível justamente pela elevação da produtividade. O que causou esse aumento e por que ele não continuou?


Castelar – No período áureo de crescimento do Brasil, entre os anos 1950 a 1980, houve sim um aumento razoável da produtividade graças ao investimento. Nessa época, a infraestrutura se expandiu muito. Em segundo lugar, a indústria também contribuiu. Da década de 1980 até 1994, com a crise da dívida pública, a produtividade andou para trás e ficou negativa. A economia ficou mais fechada, a inflação era muito alta e havia uma intervenção estatal gigantesca.


Começou então uma série de reformas estruturais, com abertura da economia, privatização e desregulamentação de uma série de atividades. Em 1994, com a estabilização proporcionada pelo Plano Real, a produtividade recuperou-se parcialmente. Desde então, nunca mais se conseguiu reproduzir esse investimento e o capital deixou de ter contribuição relevante para o crescimento do PIB. No período mais recente, o que contribuiu para melhorar a produtividade brasileira foi o emprego, isto é, há mais gente trabalhando. Atualmente, o desemprego está baixo e uma transição demográfica está em curso. Podemos prever, no entanto, que essa fonte de crescimento vai secar na frente. Então, as outras duas – capital e produtividade – passam a ser mais importantes.

Giambiagi – Este ponto do mercado de trabalho é muito importante. Nos últimos dez anos tivemos um crescimento anual do PIB da ordem de 4% e uma ampliação da população ocupada de cerca de 2,5%. A diferença está no conceito de produtividade por trabalhador. Naquele período, a população economicamente ativa (PEA) crescia mais ou menos 1,5% ao ano. Em suma, o emprego aumentava em ritmo mais intenso que o da própria PEA, o que diminuía o desemprego. No entanto, a partir do momento em que o país esbarra no limite do pleno emprego, que se estima que seja algo próximo a 5%, a população ocupada só poderá se expandir na mesma taxa de crescimento da PEA, que caminha para ficar em 1,1% daqui a uns anos, segundo dados do IBGE. No período de 2010-2050, o número de trabalhadores deve ficar estável, ou seja, todo o aumento da produção nesse período terá de vir de produtividade porque as pessoas que vão gerar o PIB serão “as mesmas”.

Além de melhorar a produtividade do trabalho, o livro aponta que há um longo trabalho para elevar a taxa de poupança interna. Por que este ponto também precisa ser atacado?


Castelar – O Brasil tem sérios problemas em relação a isso. A poupança aqui é muito baixa – o último dado mostra que está em 15,7% do PIB – e o ambiente de negócios não ajuda o investimento. É muito comum as pessoas apontarem a Coreia do Sul como modelo, mas eles investem cerca de 30% do PIB, quase o dobro do Brasil. Isso só é possível porque possuem uma taxa de poupança muito alta. Nossa média dos últimos 20 anos foi 16,5%.

Provavelmente, vamos precisar recorrer à poupança externa, mas isso tem certo limite, pois aumenta o déficit em conta corrente. O Brasil precisa depender menos do capital e mais da produtividade.

Se o Brasil tivesse conseguido manter os níveis de produtividade que foram observados até os anos 1980, como o país estaria?

Giambiagi – Seríamos uma Coreia. Tínhamos a mesma renda per capita que eles em 1980.

Em que medida a alta carga tributária agrava o problema de produtividade?


Giambiagi – As duas palavras-chave são escala e impostos. Quando se produz algo para o mercado mundial, distribuem-se os custos por um número muito maior de unidades, o que reduz o custo unitário. Lá fora, a carga de impostos é muito menor que a daqui.


Castelar – Ambos os pontos estão relacionados. O imposto aumenta muito o preço e a empresa vende menos. Consequentemente, tem menor escala. Então, parte do problema da escala tem a ver com o tamanho gigantesco da carga tributária no Brasil.

Diante de tantos desafios, que esperam para o país nos próximos anos?

Giambiagi – Nosso livro buscar servir de alerta. Os sinais estão se avolumando. De certa forma, estão corroborando nossa tese central de que a economia brasileira encontra-se num ciclo que dá manifestações crescentes de esgotamento. Vemos um 2012 fraco, com crescimento em torno de 2%. Desde que não aconteça nenhuma hecatombe na Europa, deve haver melhoria no segundo semestre. Mesmo assim, nada espetacular. Já 2013 começará com uma perspectiva mais razoável – que talvez se estique ao ano seguinte devido ao conjunto de obras que terá de ser tocado para a Copa do Mundo. Fechado esse ciclo, a partir de 2014, nossa impressão é de que o 'software' utilizado nos últimos anos, de estímulo à demanda, terá de ser trocado por estímulos à oferta com uma preocupação crescente com a produtividade e a competitividade. Associada a isso está a necessidade de colocar na agenda política do país a retomada das reformas que foram, de certa forma, abandonadas há dez anos.

Castelar - Não consigo me classificar numa escala de pessimista a otimista. Vejo que o país tem oportunidades importantes. Fizemos avanços nos últimos vinte anos, mas, por outro lado, olhando a história do Brasil e da América Latina, penso que o país já esteve nessa posição antes. Já houve muito otimismo com relação às nossas perspectivas, como nos anos 70 quando a economia crescia 10% ao ano. Não surpreendentemente a América Latina vive esse tipo de ciclo quando os preços de produtos exportados estão altos e o acesso ao crédito está fácil. Tenho esperança que nossa classe política consiga aproveitar essa oportunidade para fazer diferente do que fez no passado. Agora, há preocupação também porque nossos governantes não têm uma boa visão de quão importante o cenário externo é. Aquilo que, efetivamente, no passado fez a América Latina perder o bonde foi não perceber que existe um componente fora do controle do país que está dando uma ajuda muito grande.

Em que medida os líderes políticos podem contribuir para melhorar a produtividade brasileira?
Giambiagi – Na nossa visão, os avanços necessários não vão decorrer de propostas que emanem do Legislativo. Ele possui contradições internas e tende a não ter essa visão geral do conjunto, que é mais natural do Executivo, que tem dentro de si a restrição orçamentária e está sujeito a demandas políticas e sociais de todo o tipo. Destacamos no livro quatro elementos que nos parecem fundamentais. Primeiro, é preciso ter uma visão de longo prazo: tomar medidas não pensando apenas nos próximos dois ou três anos, mas saber onde se deseja levar o país dentro de 30 anos.


Segundo, a essa visão de longo prazo tem de estar associada a certa capacidade de tolerância. Obviamente, estamos numa democracia e todo o partido político busca se eleger. Contudo, se todas as ações políticas forem guiadas única e exclusivamente pelo objetivo de vencer a próxima eleição, questões mais controversas nunca terão vez. Outro ponto importante é a capacidade de explicar as deficiências estruturais da nação à população. Nos últimos dois períodos de governo, tivemos dois comunicadores talentosíssimos. No caso de Fernando Henrique Cardoso, não tanto o presidente, mas sim o ministro da Fazenda que conseguiu explicar um plano maluco para as pessoas e assim garantir o êxito do Plano Real. No caso do ex-presidente Lula, nem se fala. O quarto elemento é a capacidade de articulação. No governo Dilma, por exemplo, houve o caso do salário mínimo em 2011, em que o governo conseguiu vencer no Congresso com sua proposta de reajuste real zero. Quando o governo fixa uma pauta e se empenha, tem boa chance de êxito.

Castelar – O brasileiro, às vezes, tem a sensação de que o planeta está parado e que nós estamos andando. Na verdade, o mundo também está caminhando e ele já está na nossa frente. Em outros lugares estão andando muito rápido. Por isso, o que talvez soe como avanço pode ser pouco. Acho notável como as expectativas relativas ao que a Copa do Mundo vai deixar estão sendo cada vez mais desinfladas. Tudo aponta que ficarão apenas estádios de futebol novos.

Podemos dizer que essa crise da produtividade que o Brasil começa a enfrentar é o que se vê hoje também na Europa, com os países menos eficientes com dificuldade para resolver seus problemas?

Giambiagi – O que acontece é a confluência de três crises: uma fiscal, em função de má administração em alguns países; outra financeira, devido à situação dos bancos; e outra associada à insuficiência de se ter uma mesma moeda para regiões muito díspares – problema que já era conhecido, mas que se revelou mais dramático do que se supunha no lançamento do euro.

Castelar – Há sim um elemento de crescimentos díspares de custos unitários do trabalho. Na Alemanha, a produtividade cresceu bastante e os salários subiram pouco, ao passo que em alguns países da periferia europeia (Grécia, Portugal e Espanha, em especial) ocorreu o oposto. Com isso, esses países têm dificuldade de crescer exportando, pois não são competitivos. A falta de crescimento complica o problema fiscal e de crédito.

Europa Fecha Acordo de Recapitalização Directa dos Bancos e Reduzir Pressão sobre Itália e Espanha


Bruxelas – Os líderes da zona do euro fecharam um acordo na madrugada de 29 de Junho para maior integração econômica da zona de euro, com ênfase na recapitalização bancária. O pacto firmado entre os países da zona do euro terá investimentos de 120 bilhões de euros, o equivalente a pouco mais de R$ 310 bilhões.

Em uma queda de braço diplomática, os Primeiros-Ministros italiano, Mario Monti, e espanhol, Mariano Rajoy, condicionaram a adesão de seus países à obtenção de mecanismo para acesso direto dos bancos aos fundos de resgate europeus. A chanceler alemã Angela Merkel, que resistia à idéia, cedeu, mas exigiu que o Banco Central Europeu se converta no único supervisor das entidades financeiras.

Até agora, os estados tomavam dinheiro emprestado dos fundos e depois repassavam aos bancos. Isso, entretanto, estava aumentando a dívida pública, como se viu nos casos da Espanha e da Itália, a ponto de os juros cobrados pelos mercados se tornarem insustentáveis.

Pelo acordo fechado em Bruxelas, os bancos poderão buscar capital diretamente nos fundos criados para a estabilização da zona do euro.Outro ponto acordado é que os fundos de resgate europeus também vão comprar diretamente nos mercados os títulos soberanos dos países em maior dificuldade.

Dessa maneira, Itália e Espanha conseguiram arrancar dos vizinhos, em particular da Alemanha, um pacto para reduzir a pressão dos mercados sobre as dívidas dos dois países.

Conforme anunciou o presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, os líderes europeus aprovaram a criação de uma instância única de supervisão dos bancos da zona do euro, com participação do Banco Central Europeu.

Merkel, que teve que fazer concessões, afirmou sexta-feira passada que se manteve fiel a seus princípios aceitando os compromissos destinados a ajudar os países em dificuldade da zona do euro.

Eu julgo que realizamos algo importante, mas continuamos fieis à nossa filosofia: nenhuma prestação sem contrapartida, afirmou a chanceler. Continuamos inteiramente no esquema precedente: prestação, contrapartida, condições e controle, declarou.

Enquanto isso, o presidente francês, François Hollande, defensor da ideia do pacto, saudou os primeiros efeitos do acordo. O documento parece ter gerado confiança nos investidores. Os juros das dívidas italiana e espanhola já caíram na abertura dos mercados, sexta-feira.